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segunda-feira, 18 de julho de 2011

Almas perdidas

Neiff Satte Alam

“...Não há duas pessoas iguais no universo. Mas o individualismo é prejudicial. Uma pessoa individualista quer que o mundo gire em torno de sua órbita, sua satisfação está em primeiro lugar, mesmo se isso implicar o sofrimento dos outros.” (Augusto Cury)



O sol ia surgindo no horizonte daquela cidade. Um céu avermelhado encimado por nuvens escuras que davam um aspecto de “feio-bonito” ao amanhecer. Sobre o asfalto ainda úmido e frio estava estirado, sem vida, pois o manto da morte me cobria por inteiro. Os primeiros transeuntes, chocados com meu corpo, não apenas por estar sem vida, mas pelo aspecto de uma deterioração que iniciou antes da morte, ficaram estáticos olhando a cena. Não me viam, somente eu os via, sentia a dor daqueles olhares de estranhos que emitiam opiniões de lástima por ter alguém chagado àquele estado de degradação.

Enquanto aquele grupo se formava e dizia as coisas mais estranhas, mas verdadeiras, comecei a lembrar o quanto fui feliz antes de me entregar ao vicio e ceder aos conselhos ruins de amigos (?) que mandavam provar das mais estranhas e perigosas drogas, mas que jamais, segundo eles, fariam algum mal.

O sorriso alegre e de esperança em um futuro promissor que meus pais esboçavam a cada nota mais alta na Escola ou a um elogio de algum amigo ou professor, ecoava na minha mente sem corpo enquanto olhava meu corpo sem mente, prostrado como se fosse um mendigo de afeto e de carinho. Meus olhos espirituais fixaram os olhos materiais sem vida e, como um espelho, refletiram dias em que festas de aniversário organizadas por minha mãe e tias identificavam um amor incondicional, enorme e uma esperança de que seria um homem de bem e retribuiria todo o carinho ali depositado quando adulto.

Tentei fugir, mas não consegui. Tentei não olhar, mas meus olhos espirituais não tinham pálpebras. O choro era apenas uma dor, não havia lágrimas. Não podia me desculpar pela dor que causara e que ainda causaria, pois, mesmo nestas condições, meus familiares e amigos chorariam as lágrimas que não possuo mais. Gritos e lamentos teriam que ouvir e não poderia dizer nada, somente sofrer todas aquelas dores que causei, todo o sofrimento e decepções de pais que apostaram em mim.

Vi meu corpo ser enrolado em uma lona preta e colocado em um veículo para ser levado. As pessoas ainda ficaram no local, chocadas, tristes e maldizendo a todo este círculo de tráfico, distribuição e uso de drogas que permeia pela sociedade como uma víbora sedenta de almas. Vi meus pais em estado de choque recolhendo restos de meus trapos que sobraram junto ao corpo, seus olhos estavam tão sem vida quanto os meus e a dor que experimentavam era incurável e os acompanharia até o dia de suas mortes. Antes de desaparecer sobre o manto negro da morte, virei-me e li o que estava escrito no muro: DROGAS, NUNCA MAIS!

segunda-feira, 13 de junho de 2011

CONEXÕES

NEIFF SATTE ALAM

Durante a noite, quando a maior parte da população humana de Pelotas dorme, os espaços começam a ser ocupados por dezenas de animais que têm como hábito se despertarem com a ausência do sol. Corujas, morcegos, vários tipos de insetos, gatos, ratos e outros tantos animais saem em busca de alimento e de parceiros para se reproduzirem.

Dos sótãos dos casarões antigos, dos campanários e dos galhos de árvores e arbustos, caçadores esfomeados iniciam a captura de suas vítimas, muitas vezes caçadores que se transformam em caça. Revoadas de morcegos consomem milhares de insetos em pleno vôo; corujas, em vôos solitários e silenciosos, apenas quebrado por discretos “pios”, dão rasantes sobre a ratazana que se aventura nas sarjetas em busca de alimento, prende-a com suas garras fortes e, rasgando suas entranhas, sacia a fome.

Gatos, com suas pupilas dilatadas ao máximo, disputam os ratos com as corujas, mas não deixam de saborear suculentos grilos, gafanhotos e baratas. Pequenas lagartixas de grandes olhos, quase transparentes, desafiam a lei da gravidade caminhando pelas paredes, pelos troncos das árvores e pelos telhados, em sua caminhada, se não tiverem o azar de encontrar algum gato, vão consumindo dezenas de mosquitos, moscas e aranhas.

Esta grande cadeia alimentar que vai se desenhando com o avançar da noite não é casual, nem fora dos planos naturais de equilíbrio dinâmico e de manutenção em números satisfatórios de todos estes animais envolvidos nesta festança gastronômica noturna.

Enquanto dormimos, a natureza vai cumprindo seu papel de manter vivo e em equilíbrio nosso Planeta. Todos estes exemplos citados se constituem em uma ínfima amostra do que ocorre nas 24 horas do dia e dia após dia longe, na maioria das vezes, dos nossos olhos ou de qualquer um de nossos sentidos. Este involuntário afastamento destes fatos naturais faz com que não percebamos sua importância na própria manutenção de nossa saúde individual e ambiental. Não percebermos esta rede interconectada entre todos os seres vivos e principalmente que fazemos parte desta rede, transforma-nos em vítimas das nossas próprias ações que, sendo inconseqüente e muitas vezes de equivocada esperteza, desarmonizam e desequilibram o suporte de vida com que nos brinda o ecossistema.

Se olharmos o Planeta Terra de fora, perceberemos que nenhuma de suas partes, desde as microscópicas bactérias até as gigantescas sequóias, é dispensável; perceberemos que o clima, com todas suas variações, segue regras planetárias bem definidas e que, se sofrerem quaisquer alterações por agentes externos, comprometerão todo o resto; perceberemos que, mesmo que todo o processo evolutivo ocorra pelo acaso, pelos erros e incertezas da e na própria natureza, existe uma busca permanente de se manter em processo de auto-organização.

Logo, sempre que alterarmos este estado de equilibro por necessidade de sobrevivência de nossa própria espécie teremos que ter o cuidado de avaliar as conseqüências e minimizar os impactos. Caso isto não seja feito, os benefícios aparentes serão sufocados por enormes prejuízos e, na pior das hipóteses, uma catástrofe ecológica de dimensões inimagináveis.

domingo, 22 de maio de 2011

VOCÊ JÁ ABRAÇOU ALGUÉM HOJE?

HOJE, 22 DE MAIO, É O DIA DO ABRAÇO





NEIFF SATTE ALAM

Vendo as imagens de dois esqueletos fossilizados, e imaginando como seriam, milhares de anos soterrados e abraçados de tal forma que parecia um impossível poema de amor a atravessar o tempo., percebi a importância do abraço.

Hoje, desvendados para um mundo onde coisas elementares como um simples abraço parece não sensibilizar, dá-nos uma lição de como é importante abraçar.

Pode ser um simples abraço de amizade onde os batimentos cardíacos possam se confundir ou um abraço de dois amantes que parecem pretender fundirem-se em uma só pessoa, uma só alma e um só coração; pode ser o abraço entre irmãos que se unem pela consangüinidade e hereditariedade comuns ou entre pais e filhos que deverão ser sempre uma doação do mais puro amor.

Muitas vezes abraçamos desconhecidos e, na forma sincera de abraçar, desenvolvemos laços de amizade que talvez tenham a idade espiritual dos esqueletos fósseis encontrados abraçados, abraços que podem ser também eternizados por este sentimento, a amizade.

Podemos também abraçar causas, idéias, projetos. São abraços que utilizam os braços espirituais e do conhecimento e até da sabedoria, situações e valores inerentes ao homem e que muitas vezes é ignorado ou esquecido.

Até mesmo o abraço falso, aquele que ocorre precedido pelo cinismo e pela hipocrisia, terá de um dos componentes um sentimento de harmonia e lealdade e poderá ser a lição que recuperará o falso e lhe permitirá encontrar caminhos mais leais e éticos.

Nenhum abraço será perdido. Alguns serão demorados e estreitos, outros serão breves e distantes. O dos amantes se prolongará até o mundo dos sonhos se tornarem realidade e novos sonhos surgirem, outros serão breves, desprovidos de muito sentimento e identificarão o grau de afeto que deverá se seguir e, identificado pelo respeito mútuo, ditará as regras do relacionamento e a intensidade deste.
Mas o mais sincero é o da criança que abraça o pai ou a mãe. Um abraço que sugere amor incondicional e uma busca instintiva de segurança e que parece vir da ancestralidade de uma vida anterior, com saudade satisfeita pela presença dos pais.

Recusar um abraço é uma ofensa, mesmo de um desafeto, pois pode ser um pedido de desculpas, uma tentativa de recuperação de uma afetividade perdida ou uma forma de perdão.

Você hoje já abraçou alguém? Não? Então abrace e verá como o mundo pode ser melhor, pois será do tamanho do abraço que der e receber...

quarta-feira, 11 de maio de 2011

ÁRVORE, UM SÍMBOLO DE FERTILIDADE E RENASCIMENTO.

Neiff Satte Alam
Raízes fortes, impregnadas de força e de história; troncos soberbos que sustentam a construção de folhas, flores e frutos; símbolos de um renascer para vida.
Árvores, mais do que árvores, impregnadas de experiência, sabedoria e de vida ...muita vida.
Erguem-se em direção ao céu e abrem seus galhos como se fossem braços em busca do Criador.

Abrem suas flores como se fossem presentes a toda a humanidade em homenagem àqueles que estão permanentemente renascendo. Misturam-se segundo suas preferências não importando espécies, tamanhos ou formas, mas apenas harmonizam-se para que todas possam disputar de espaço, de ar, do solo e da água. Naturalmente há competição entre elas, mas a lealdade à genética de cada uma será sempre respeitada.
Sobre elas muitas outras plantas encontrarão abrigo e suporte, algumas sugarão sua seiva, mostrando que até entre as plantas há ações desprovidas de agradecimento pelo bem que fazem. Pequenos animaizinhos aí encontrarão refúgio, disputarão espaço entre si, alimentar-se-ão de fungos, de outros animais, de folhas e muitas vezes da seiva e do cerne.
Uma árvore sozinha deverá se constituir em um ecossistema completo: terá clima próprio; será sede e parte ao mesmo tempo de uma complexa teia alimentar. Em conjunto formarão bosques, matas e grandes florestas. Darão ao meio em que estiverem inseridas um potencial e uma diversidade de vida que permitirão aos animais maiores que habitarem entre seus troncos ou na proximidade deste uma capacidade de sobrevivência e de qualidade de vida que estabelecerão, neste conjunto, um complexo de auto-organização em perfeito equilíbrio dinâmico que denominamos vida.
Cortadas, destroçadas, transformadas em matéria prima para construções de móveis ou moradias; queimadas para gerarem calor que auxiliará o homem nas suas necessidades de obtenção de energia que produzirá eletricidade ou movimentará trens, exigem renovação para continuarem a servir todos os seres que delas dependem.
Componentes de florestas de dimensões fantásticas no passado, são hoje uma população em fase de extermínio e com elas o resto da flora e da fauna que antes faziam parte desta outrora pujante e diversificada comunidade ambiental.
Ao eliminarmos as florestas, as verdadeiras florestas, com toda sua biodiversidade que dá equilíbrio ao sistema Terra, estaremos abreviando a existência do homem no planeta ou, na melhor das hipóteses, determinando uma qualidade inferior de vida à grande maioria da humanidade.
Ao preservarmos as florestas com toda sua biodiversidade, como biomas estabilizados e adaptados, estaremos preservando a vida com qualidade do homem, pois somente um ambiente equilibrado garantirá sobrevivência da espécie humana.

domingo, 8 de maio de 2011

Coisas que não combinam ...

Neiff Satte Alam

Cheguei à Praia do Laranjal, coloquei a cadeira em um ponto estratégico à sombra de um plátano, abri o jornal e ... opa! Uma rajada de vento levou metade das folhas que se esparramaram da zona do chafariz até o trapiche.
Neste momento lembrei que tem muita coisa que não combina. A primeira é esta mesmo: ler jornal com vento! Existem outras, mas que teimosamente reincidimos.
Criança e escada não combina, principalmente as de caracol ou sem corrimão. Outra combinação complicada é chuva tocada a vento e guarda-chuva: o guarda-chuva vira objeto inútil e o banho de chuva uma realidade, se for no inverno, pior ainda, pois pode virar uma forte gripe ou pneumonia dupla.
Talvez uma das piores, por ter consequências graves, é dirigir alcoolizado, neste caso, motorista em trânsito e bebida alcoólica é uma péssima combinação, podemos até dizer que é uma combinação fatal.
Já perceberam como é incômoda a novela das oito combinada com aquela visita inesperada de alguém que detesta novelas e fica falando de culinária? Ou o sujeito apaga a televisão ou apaga a visita, ora, como saberemos o final do capítulo de um tema tão importante como os abordados nas novelas?
Tem coisas mais amenas, como é o caso de comer bolachas na cama, pois farelo não combina com lençol: ou sai a bolacha ou sai o “bolacheiro”, depois de limpar o lençol, é claro. Ainda na cama de casal, que era o caso anterior, não combinam dois controles remotos, principalmente se tem um bom jogo de futebol na hora daquele programa favorito do outro cônjuge (que, no caso, é normalmente a mulher) O jogo termina sendo visto na TV da sala!
Mas também não combinam: telefone celular tocando música de carnaval durante um velório ou na apresentação de uma orquestra sinfônica; Tiririca e Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados; Mensaleiros e Comissão Justiça da mesma Câmara; Paim e o provento dos aposentados; ... bem o leitor pode se fartar com outras não combinações se puxar pela memória.
Parece que estas contradições fazem parte de nosso cotidiano e são tão comuns que não nos damos conta das complicações ou constrangimentos que possam causar. Claro que poderíamos fazer uma lista muitas vezes maior das coisas que combinam, mas, é como o caso do sujeito que estava impecavelmente vestido, apenas colocou o casaco do avesso e isto, apenas isto, foi o que chamou a atenção ... Para ficar mais claro: o Tiririca é o casaco do avesso da Câmara dos Deputados, a única diferença é que o resto também não está bem arrumado, isto é, este Congresso Nacional não está combinando com democracia ...

domingo, 1 de maio de 2011

IMORTALIDADE DO PENSAMENTO HUMANO

NEIFF SATTE ALAM

Michel de Montaigne nasceu em 28 de fevereiro de 1533, século XVI, passaram-se 464 anos de seu nascimento. Morreu aos 59 anos e deixou uma obra rica e atual, pois muito do que escreveu, principalmente em “Ensaios”, sua obra mais polêmica, pode ser parte do atual contexto, independentemente do que se possa considerar certo ou errado.
Sua concepção de política de governo, tendendo ao liberalismo de hoje, é de que “...o indivíduo é deixado livre dentro do quadro das leis e se procura tornar tão leve quanto possível a autoridade do Estado. Para ele, o melhor governo seria o que menos se faz sentir e assegura a ordem pública sem por em perigo a vida privada e sem pretender orientar os espíritos”. Não se trata de uma minimização do Estado, mas uma eficiência do Estado que, em condições, pode proteger seu povo através de governantes que devem saber a hora de improvisar e a hora de preparar o que fazer. Aliás, sobre esta questão de improvisação e preparação, no caso das oratórias inoportunas, deixa uma mensagem aos governantes que não sabem improvisar, mas teimam em fazê-lo: “...Nunca foi dado a ninguém acumular os dons da natureza. Assim acontece que entre aqueles a quem foi dado o dom da eloquência, alguns há cuja palavra é pronta e fácil e têm a réplica tão viva que nunca falham, enquanto outros mais tardios só falam depois de longamente elaborado o tema de antemão escolhido.”
A improvisação, aqui colocada, não se refere a uma ação inconsequente, mas a uma resposta rápida às emergências e urgências, portanto uma qualidade, neste contexto, talvez uma virtude e, como todas as virtudes, tem sempre o viés da conseqüência, pois mesmo a virtude tem seus limites. Podemos utilizar como exemplo, a valentia. Em “Ensaios”, Montaigne analisa bem esta questão e nos dá, de novo, uma lição de como tratar questões difíceis e de como reagir de pronto a situações adversas: “... A valentia tem seus limites, como qualquer virtude; ultrapassá-los pode levar ao crime. Pois é ela suscetível de tornar-se temeridade, obstinação, loucura em lhe ignorar os marcos delimitadores, bem difíceis em verdade de se perceberem em dados pontos da separação. Daí, dessas considerações nasceu o costume de, na guerra, punir-se até com pena de morte quem teima em defender uma praça não mais defensável segundo as regras da arte militar. Sem o que, confiando na impunidade, não houvera choça que não sustasse a marcha de um exército”.
Assim, nos dias de hoje, deve se portar a oposição. Recuar da posição de inferioridade, mas manter-se viva para assumir o poder em outra oportunidade. Lamentavelmente o que se percebe é a manutenção do estado belicoso de campanhas eleitorais quando os derrotados não se entregam e podem terminar eliminados, pois improvisam mal e preparam-se pior ainda quando elaboram a “escrita”.
Retiradas estratégicas são necessárias para manter formas e métodos diversos de governo, para que as alternativas ideológicas se mantenham vivas e a diversidade de pensamento, tão importante para a democracia, permaneça como reserva para novas realidades e novas necessidades no futuro.
Michel de Montagne morreu no dia 13 de setembro de 1592, mas vale ainda a leitura de “Ensaios”, pois sua obra venceu o tempo.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

SOB A HIPNOSE DO FOGO

NEIFF SATTE ALAM

“...Somos céus atravessados por nuvens de energias vindas da profundidade dos tempos. Quanto mais acreditamos que somos alguém, mais somos ninguém. Quanto mais sabemos que somos ninguém, mais somos alguém.” Pierre Lévy

Tramamos a lenha no fundo da lareira, riscamos um fósforo em chumaços de papel meticulosamente colocados entre as achas e ficamos auxiliando a expansão do fogo, uma visão que nos mantém presos à magia das chamas.

Por alguns instantes, hipnotizados pelos movimentos ritmados das labaredas, recuamos no tempo, a um tempo anterior a história. Vivemos, em pensamento, o Paleolítico, idade da pedra lascada e época, onde tudo indica, o homem começou a domesticar o fogo. Não há nada escrito, apenas indícios, mas suficientes para gerarmos estas idéias, principalmente quando estamos frente à lareira sem poder tirar os olhos das chamas.

Quando o homem passou a produzir seus artefatos polindo pedras e dando-lhes utilidade e significado, naqueles tempos que denominamos período Neolítico, também começou a entender que seu corpo, seu cérebro e o conhecimento que começara a adquirir necessitavam de periféricos para realizarem suas tarefas manuais e operar ações mais importantes, como fazer guerras, controlar os inimigos ou opositores e até progredir e buscar condições mais favoráveis de sobrevivência, com qualidade e por um tempo maior.

Frente ao fogo, hipnotizados e em um verdadeiro e inexplicável momento de libertação do pensamento, ficamos imaginando o homem pré-histórico formando grupos familiares em torno de uma fogueira no fundo de uma caverna, talvez extasiado pela sua conquista, imaginando quantas coisas poderia fazer além de receber calor, luz e proteção contra as feras que rondavam sua primitiva moradia, seu lar.

O pensamento destes homens, de sua descendência por séculos, foi se estruturando em uma fonte de sabedoria que passou a ter caminhos próprios e uma capacidade de transmissão pela escrita, pelos feitos e criações que foram assimilando e estruturando o homem de hoje que, frente a lareira, recupera a gênese do pensamento como se fossem lembranças atávicas transmitidas por genes que vão se ajustando a cada mudança e a cada conquista.

Das conquistas do Período Neolítico até os dias de hoje, talvez a maior conquista tenha sido a que diz respeito a evolução do pensamento, o domínio das idéias e do conhecimento sobre o instinto puro e simples de sobrevivência e um controle sobre suas criações no campo da informática, de modo a dominá-la da mesma forma que o fez com o fogo e com as lascas de silício, pois se o silício acelerou o homem primitivo o mesmo silício está capacitando o homem ao grande salto para o futuro ao compor as unidades básicas de um computador, pois a cibernética é a conquista do pensamento que, assim como o domínio sobre o fogo, colocou o homem na história, criando uma esfera de pensamento universal, a Noosfera e, o domínio da informação e do conhecimento, fará com que esta história tenha futuro e continuidade. Evoluímos, então, do Neolítico para o Noolítico em um piscar de olhos, entre uma chama e outra, entre as fogueiras do Paleolítico e as labaredas das lareiras dos dias atuais enquanto manipulamos o mais novo periférico não orgânico do homem, o computador. Tudo isto sob a hipnose do fogo!

sábado, 23 de abril de 2011

EM TORNO DA MESA

Neiff Satte Alam

Sempre foi necessário mais imaginação para apreender a realidade do que para ignorá-la. (J. Giraudoux)

Pelotas 13 horas, boa tarde!

Reunidos em torno de uma enorme mesa de madeira nobre e escura, com dez microfones bem distribuídos e com uma pauta carregada de hipertextos que a transformam em uma agradável viagem com escalas imprevisíveis, reúnem-se os convidados do Clayton Rocha. As escalas são atemporais e podem ocupar qualquer espaço no planeta, em frações de segundos vai-se de Pedro Osório ao Vaticano e se retorna à mesa.

Em torno desta mesa cruzam-se conversas amistosas, agressivas, irônicas, enfim, qualquer coisa pode ocorrer quando os participantes ficam descontrolados pela veemência, pelas argumentações afoitas ( ou não), pelas diferenças ideológicas e partidárias. Argumentos os mais variados surgem como se fossem coelhos saindo da cartola de um mágico. A diversidade de pensamentos é tal que os debatedores não conseguem escutar quando alguém fala e terminam por falar simultaneamente.

É como se estivéssemos todos junto a um balcão do antigo Bar Baby (um bar que se localizava nos anos 60 na Barroso esquina Gomes Carneiro) debatendo política, futebol, arte, filosofia, educação e....o que mais aparecesse. Enquanto um grupo debatia acaloradamente os ouvintes das mesas próximas ficavam a dar palpites. De certa forma a fauna toda (papagaios falantes e corujas ouvintes) interagia, até mesmo torcidas surgiam e gritos de apoio a um ou outro debatedor era fato comum.

Uns apoiando Fidel Castro, outros apoiando Pinochet e ainda uma série de outros “apoiamentos” a políticos de todas as ideologias possíveis ou imagináveis. “Bernadistas” e “marronitas”, trabalhistas, petistas, neoliberais, fascistas e lacerdistas degladiam-se sob o controle – quando possível controlar – de nosso âncora e de sua fiel escudeira Cláudia.

E os ouvintes? Bem! Estes (im)pacientemente escutam, tomam partido de um ou outro debatedor, incomodam-se quando dois, três ou...todos falam ao mesmo tempo, mas interagem, participam, alguns, não resistindo a incapacidade física de responder ou argumentar, deslocam-se até os estúdios, sobem sete andares de escadas e entram disparando seu verbo como se estivesse conversando com pessoas que conhece a muitos anos, mas que somente conhece suas vozes.

É isto aí amigo Clayton, teu programa faz parte do diálogo que toda a cidade deveria ter com e entre seus cidadãos. É aquela conversa do antigo Bar Baby, é a conversa que está sempre começando no Café Aquário(s), mas que não termina nunca para que se possa retomá-la no dia seguinte.

De qualquer forma é a realidade que se busca apreender. São os fatos que mobilizam a cidade, o estado, o país e o mundo que discutimos em torno desta mesa de madeira nobre e escura onde nada é ignorado para que a Grande Pelotas tenha uma hora e meia de atenção e diálogo e que o Cancelão, Catimbau, Vila Freire, Açoita Cavalo e, pela Internet, o resto do mundo, lugares distantes do Café Aquário(s) sintam-se parte deste pequeno grande universo em que vivemos.

E como diz a Cláudia Rodrigues em sua serena sabedoria: “Este programa tem vida própria”.

Mas o final é sempre o mesmo: “até amanhã”!!!

domingo, 17 de abril de 2011

“Dossieologia”, uma fábrica de maldades!

NEIFF SATTE ALAM
“Dossieologia”, uma nova ciência que toma corpo e se amplia anualmente pelo Brasil todo.Para os que não conhecem esta ciência, devo explicar que se trata de uma atividade de produção de dossiês contra os pretendentes a cargos em qualquer esfera pública (Município, Estado ou União). É mais ou menos como aquela história dos caranguejos dentro de um barril: “ uma grande quantidade de caranguejos é colocada dentro de um barril sem tampa e nenhum consegue sair, pois os de baixo puxam os de cima cada vez que algum caranguejo se aproximar da borda do barril”. Os dossieólogos funcionam assim, até entre eles!
A produção deste material se dá em fábricas localizadas nos emaranhados de esgotos cloacais e os “dossieólogos”, pseudo bem informados, são como ratazanas que, mal amadas, com uma reduzida autoestima e providos de poucos neurônios que têm suas ramificações enredadas e mal distribuídas, ficam fermentando inveja e raiva contra qualquer pessoa de bem que venha a ser pensada para algum cargo de confiança.
Dizem que todos os governantes têm um arquivo somente de dossiês encaminhados por estes indivíduos. Ninguém sabe como é que chegam, mas pode-se imaginar estas ratazanas dossieólogas saindo para as valetas, sarjetas e canais de escoamento à noite e, através de serviçais “laranjas”, promovendo a farta distribuição de seu trabalho sujo e que nada contribui para desenvolvimento e melhoria das condições de vida de nossa cidade.
Quando estranhamos que nossos políticos são barrados, podemos ter certeza que, junto com os currículos, chegarão estes tais de dossiês, aliás, uma prática utilizada, no passado pelo ACM, líder baiano, com sua famosa “pasta Cor-de-rosa” cujo interior continha um dossiê que nunca foi aberto ou conhecido, mas funcionou como arma de um político mau caráter, pelo menos nesta ação. Ainda tem “Aloprados”, Arapongas, etc...
Pessoas de bem, que são muitas em nossa cidade, discutindo e comentando esta situação, iniciaram um exercício mental de contenção a estes produtos da dossieologia em franca proliferação. Várias propostas foram levantadas: a mais simples seria ignorar, mas como ignorar a presença fétida destes indivíduos? Como, não os reconhecendo, deixa-los impunes e livres para seguirem com suas maldades? Esta proposta ficou prejudicada; utilizar o mesmo veneno foi argumentado por um dos componentes do grupo, mas, fazer o mesmo, colocar-nos-ia no mesmo patamar do dossieólogo e, de qualquer forma, não fazia parte da índole e do caráter dos componentes do grupo esta forma de agir; a terceira proposta pareceu a mais adequada, não lembro bem quem teve esta brilhante idéia, mas teve a aceitação unânime, teríamos que fazer uma “vaquinha” para juntar uma “grana” que fosse o suficiente para comprar uma passagem de ida, somente de ida, para o Iraque, mais precisamente Bagdá, e propor um curso de pós-graduação em dossieologia a um dos dossieólogos que pudéssemos identificar ( não podemos esquecer que estes atuam nos esgotos e somente saem às ruas na calada da noite). A tese de conclusão do curso seria a montagem de um dossiê contra os xiitas e encaminhado aos sunitas e outra contra os sunitas e enviada aos xiitas. A expectativa é que o nosso pós-graduado, ao defender sua tese, com louvor, recebesse um fraternal abraço de um iraquiano enrolado em dinamites, segundos antes de explodir.
O dossieólogo não sobreviveria, mas teríamos a certeza que seu cérebro não seria doado a ninguém e que seu aprendizado teria o fim que merece.
Mas, como os dossieólogos não existem, isto tudo é uma brincadeira, ninguém ficará ofendido ou se sentirá atingido, a não ser que...

domingo, 3 de abril de 2011

AS PITANGUEIRAS DE VILA OLIMPO

NEIFF SATTE ALAM

Éramos um grupo considerado terrível para os padrões da época. Todos filhos ou netos de professores na faixa dos 8-9 anos de idade. Dois rios, Piratini e Santa Maria, faziam nossa alegria de verão. No local denominado “Orqueta”, às margens do Rio Santa Maria e a poucos metros de desaguar no Rio Piratini, fazíamos reuniões com grande parte da comunidade de Vila Olimpo (hoje Pedro Osório). Junto às margens do rio, com uma praia de areia grossa, havia um mato com araçazeiros e pitangueiras em meio a açoita-cavalo, aroeiras, maricas, umbus e outras árvores. Araçás e pitangas eram o nosso “café da tarde”, entre um mergulho e outro, entrávamos no mato e colhíamos as frutinhas saborosas, doces e muito saudáveis. Nossa saúde era de “ferro”.
O meio de transporte utilizado para o deslocamento até às margens do rio era a bicicleta, como as ruas não eram calçadas, o exercício físico em meio a areia das ruas completava nosso invejável preparo físico de forma natural e saudável.
A saúde daquela gurizada barulhenta, que saltava da ponte para o rio ou mesmo de suas barrancas que predominavam em uma das margens, era comparável a saúde daquele invejável e equilibrado ambiente que ainda preservava sua biodiversidade, pois dezenas de diferentes aves, insetos, mamíferos, anfíbios e répteis faziam-nos tomar cuidados especiais e nos colocavam como parte daquele ambiente perfeitamente organizado. No rio assistíamos peixes movimentando-se por entre as pernas dos banhistas. Os pescadores da noite contavam o sucesso das pescarias de jundiás, traíras e dourados, utilizando como iscas pequenos lambaris.
Hoje, passados mais de meio século destas aventuras de infância, percebemos como foi importante aquela convivência com um meio ambiente saudável e preservado, pois é indissociável o equilíbrio do meio em que vivemos com o nosso próprio equilíbrio orgânico, mental e espiritual. Aquelas crianças que se banhavam no rio são hoje os educadores, políticos, cientistas, jornalistas, médicos, agrônomos e veterinários atuantes na região, no Estado e no País e a lembrança daqueles tempos nos obriga a fazermos linha de frente para que aquele rio e todos os rios, aquela praia e todas as praias, aquela mata e todas as matas recuperem sua organização em clímax, superem as investidas desenvolvimentistas e permitam o retorno a um ambiente saudável para que voltemos a ser saudáveis. É urgente que tomemos consciência de nossa responsabilidade para com o futuro e que não nos entreguemos como bois ao matadouro, sem lutar, pois existem muitos outros caminhos para o desenvolvimento sem que tenhamos que comprometer o já tão desgastado meio ambiente, pois este é nossa verdadeira casa. Vamos ter coragem e voltar a ter saúde, dignidade e alta autoestima e exigir de nossos governantes mais criatividade para que não se entreguem a soluções fáceis e programadas para usufruir o que mais sagrado temos: nossa casa-Terra.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Síndrome de Burnout

Neiff Satte Alam

O Professor, antes decidido, enstusiasmado e com enorme vontade de dar o máximo de si para obter os melhores resultados de seu trabalho, profissionalismo associado a vocação, receita ideal para um excelente desempenho, repentinamente é surpreendido por um total desânimo. O comportamento do professor começa a se alterar, fica irritadiço, agressivo, desinteressado e totalmente desconcentrado. É um mau Professor? Está na profissão errada? Não! Este Professor está com todos os sintomas da Síndrome de Burnout.

A Síndrome de Burnout é o resultado de uma exaustão emocional provocada por estresse profissional. O termo Burnout é uma composição de burn=queima e out=exterior, sugerindo assim que a pessoa com esse tipo de estresse consome-se física e emocionalmente, passando a apresentar um comportamento agressivo e irritadiço. A autoconfiança, o humor e a concentração atingem índices de redução extremamente comprometedores e fazem com que o Professor pareça irresponsável e desinteressado por seu trabalho, mas na verdade está acometido de uma doença provocada por fatores externos e que não podem ser controlados por ele, pois a causa está em uma estrutura/conjuntura educacional, social e econômica que tem mais a ver com a inexistência de políticas públicas que determinem uma real prioridade à Educação. Naturalmente existem outros fatores que se associam a desvalorização do trabalho docente por parte dos agentes públicos, vejam, por exemplo, a reação à Lei do Piso Salarial Nacional aos Professores da Educação Básica por parte dos governantes. Estes outros fatores foram detectados por pesquisas feitas em Escolas como: políticas inadequadas da escola para casos de indisciplina; atitude e comportamento dos administradores; avaliação dos administradores e supervisores; atitude e comportamento de outros professores e profissionais; carga de trabalho excessiva; oportunidades de carreira pouco interessantes; baixo status da profissão de professor; falta de reconhecimento por uma boa aula ou por estar ensinando bem; alunos barulhentos e totalmente sem limites; lidar com os pais, entre outros. Esta mesma pesquisa identificou os sintomas que são percebidos imediantamente: sentimento de exaustão; sentimento de frustração; sentimento de incapacidade; carregar o estresse para casa; sentir-se culpado por não fazer o bastante; irritabilidade.

Desta forma, o mais importante elo neste complexo trabalho de transportar as crianças do hoje para o amanhã, de forma a transformá-las em cidadãos dignos, respeitados e em condições de enfrentar as adversidades da vida de forma positiva, vencendo as resistências naturais às suas conquistas individuais.

Preservar o Professor de doenças sociais, como é o caso da Sídrome de Burnout, é uma tarefa para os políticos, governantes e educacionistas bem intencionados e que não transformem a luta por uma educação de qualidade em plataformas demagógicas de governo em suas campanhas eleitorais.

Abaixo temos algumas informações mais técniccas sobre esta síndrome.

A Síndrome de Burnout em Professores

A burnout de professores é conhecida como uma exaustão física e emocional que começa com um sentimento de desconforto e pouco a pouco aumenta à medida que a vontade de lecionar gradualmente diminui. Sintomaticamente, a burnout geralmente se reconhece pela ausência de alguns fatores motivacionais: energia, alegria, entusiasmo, satisfação, interesse, vontade, sonhos para a vida, idéias, concentração, autoconfiança e humor.
Um estudo feito entre professores que decidiram não retomar os postos nas salas de aula no início do ano escolar na Virgínia, Estados Unidos, revelou que entre as grandes causas de estresse estava a falta de recursos, a falta de tempo, reuniões em excesso, número muito grande de alunos por sala de aula, falta de assistência, falta de apoio e pais hostis. Em uma outra pesquisa, 244 professores de alunos com comportamento irregular ou indisciplinado foram instanciados a determinar como o estresse no trabalho afetava as suas vidas. Estas são, em ordem decrescente, as causas de estresses nesses professores:
• Políticas inadequadas da escola para casos de indisciplina;
• Atitude e comportamento dos administradores;
• Avaliação dos administradores e supervisores;
• Atitude e comportamento de outros professores e profissionais;
• Carga de trabalho excessiva;
• Oportunidades de carreira pouco interessantes;
• Baixo status da profissão de professor;
• Falta de reconhecimento por uma boa aula ou por estar ensinando bem;
• Alunos barulhentos;
• Lidar com os pais.
Os efeitos do estresse são identificados, na pesquisa, como:
• Sentimento de exaustão;
• Sentimento de frustração;
• Sentimento de incapacidade;
• Carregar o estresse para casa;
• Sentir-se culpado por não fazer o bastante;
• Irritabilidade.
As estratégias utilizadas pelos professores, segundo a pesquisa, para lidar com o estresse são:
• Realizar atividades de relaxamento;
• Organizar o tempo e decidir quais são as prioridades;
• Manter uma dieta balanceada e fazer exercícios;
• Discutir os problemas com colegas de profissão;
• Tirar o dia de folga;
• Procurar ajuda profissional na medicina convencional ou terapias alternativas.
Quando perguntados sobre o que poderia ser feito para ajudar a diminuir o estresse, as estratégias mais mencionadas foram:
• Dar tempo aos professores para que eles colaborem ou conversem;
• Prover os professores com cursos e workshops;
• Fazer mais elogios aos professores, reforçar suas práticas e respeitar seu trabalho;
• Dar mais assistência;
• Prover os professores com mais oportunidades para saber mais sobre alunos com comportamentos irregulares e também sobre as opções de programa para o curso;
• Envolver os professores nas tomadas de decisão da escola e melhorar a comunicação com a escola.
Como se pode ver, o burnout de professores relaciona-se estreitamente com as condições desmotivadoras no trabalho, o que afeta, na maioria dos casos, o desempenho do profissional. A ausência de fatores motivacionais acarreta o estresse profissional, fazendo com que o profissional largue seu emprego, ou, quando nele se mantém, trabalhe sem muito esmero.

sexta-feira, 18 de março de 2011

STF suspende votação do piso salarial de professores

17-Mar-2011



O senador Cristovam Buarque e a CNTE – Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação, entidade que representa aproximadamente dois milhões e meio de professores e funcionários de escola, esperavam que o dia 17 de março fosse a data em que a Lei do Piso teria definitivamente que ser cumprida por todos os estados e municípios. Porém, o STF – Supremo Tribunal Federal cancelou o julgamento que estava marcado para hoje da ADI – Ação Direta de Inconstitucionalidade impetrada em 2008 por cinco estados ((MS, PR, SC, RS e CE), que contesta alguns pontos da Lei 11.738, sancionada no mesmo ano, também conhecida como Lei do Piso do Magistério.

A expectativa do senador e do corpo diretivo da CNTE é de que o Supremo respeite o Congresso Nacional, que aprovou o Piso Nacional dos Professores, por unanimidade, e marque logo uma nova data para uma decisão final.

Fonte: CNTE

Entenda o caso
Em 2008, o então presidente Lula sancionou a Lei 11.738, conhecida como Lei do Piso do Magistério e que regulamenta a base salarial dos professores em todo o Brasil. Na época, a Lei determinava um valor de R$950,00, somados aí o salário e as gratificações e vantagens para uma carga horária de até 40 horas semanais para os profissionais com formação de nível médio. O valor ainda que não fosse o ideal e reivindicado pela CNTE, dava forças para que a categoria seguisse confiante no trabalho e na luta por um salário melhor.

Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Ceará contestaram e, com o argumento de que não tinham recursos para pagar o valor determinado em Lei, entraram no mesmo ano com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade. Em dezembro de 2008, a Ação foi julgada (liminarmente) pelo Supremo que reconheceu a legitimidade da Lei, porém com a limitação de dois dispositivos: o da composição do piso e o que trata da jornada fora de sala de aula. Estes dois pontos ficaram para ser julgados mais tarde e são estes pautados para julgamento no dia 17. Em janeiro deste ano o governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, pediu a exclusão do seu estado da Ação. Pedido que foi negado pelo ministro Joaquim Barbosa, já que, no entendimento dele, o relatório já havia sido entregue.

Composição do Piso
Segundo os governadores que entraram com a ADI, os estados não estão preparados para suportar a despesa de pagar um valor mínimo para os professores. Argumento que foi arduamente contestado pelo ministro da Educação, Fernando Haddad. Segundo ele, no texto que criou o Fundo Nacional de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb), em 2006, já havia a previsão para a instituição de um piso nacional para os professores. "Eu entendo que essa ADI não deva prosperar porque foi feita uma mudança na Constituição prevendo o piso. Então, se foi feita uma emenda constitucional, não há porque julgar inconstitucional uma lei que regulamenta esse dispositivo", alegou.

Além disso, o MEC anunciou que vai liberar este ano 1 bilhão de reais para as prefeituras que comprovarem que a falta de dinheiro foi causada exclusivamente pela implementação do Piso e seus reajustes. Em fevereiro, o MEC reajustou o valor do Piso de R$1.024,00 para R$1.187,97.

Jornada extraclasse
A Lei define no parágrafo quatro do artigo 2º o cumprimento de, no máximo, 2/3 da carga dos professores para desempenho de atividades em sala de aula. Sobre este ponto, os governadores alegam que com o aumento das horas que cada professor terá que cumprir para o planejamento das aulas e a consequente diminuição das horas dentro de sala de aula, os estados vão ser obrigados a contratar mais profissionais. Com a aprovação da Lei do Piso os mestres devem reservar 33% do seu tempo com planejamento. Para os governadores, esta obrigação interveio na organização dos sistemas de ensino estaduais. A Lei de Diretrizes e Bases (LDB) diz como seriam os sistemas de ensino nos estados, mas cada estado tem sua autonomia.

Para a CNTE, o tempo destinado para o planejamento das aulas é importante para elevar a qualidade do ensino. “Um professor sem tempo para planejar o que irá passar para o aluno, acaba fazendo um mau trabalho. Esta jornada extraclasse não é para descansar. Continua sendo mais uma etapa do trabalho”, explicou Leão.

Mobilização dos trabalhadores em educação
Desde então, a CNTE e as suas 41 entidades afiliadas se mobilizam para pedir urgência no julgamento da Ação e que os ministros reconheçam a legitimidade da Lei. No ano passado preparou um dossiê que reúne 159 depoimentos com as angústias dos educadores de todo o país sobre o não cumprimento da lei do Piso. O documento foi entregue no dia 16 de setembro do ano passado ao ministro da Educação, aos presidentes da Câmara, do Senado e do STF.

A mobilização rapidamente surtiu efeito. Um dia após a manifestação, o ministro relator Joaquim Barbosa entregou o relatório da Ação, documento que faltava para que a ADI entrasse na pauta de votação do STF. “O não julgamento da Ação tem causado um problema enorme que são as múltiplas interpretações que os gestores fazem da lei. Temos que acabar com isso, para que possamos construir uma educação pública de qualidade”, ressaltou Leão.

Reajustes
Além da luta pela implementação do Piso, a CNTE briga pela aplicação do reajuste conforme estabelece a Lei. A lei aprovada pelo Congresso fixa como parâmetro o aumento de gasto por aluno/ano no Fundeb. A divergência é se deve ser considerada a variação do ano anterior, isto é, de 2009 e 2010, ou a atual, de 2010 para 2011. A Advocacia-Geral da União (AGU) argumenta que, em 2011, só existe uma estimativa de receita e que seria temerário dar um reajuste com base em previsões. Já a CNTE diz que a lei é clara e fala no ano atual e aconselha os sindicatos a contestarem o Piso do MEC na justiça.

No ano passado o MEC reajustou o Piso de R$950,00 para R$ 1.024,67, mas a CNTE reivindicou o aumento para R$ 1.312,85, que, infelizmente, não foi atendida. Para este ano, a CNTE afirma que o reajuste deveria ser de 21,71%, o que elevaria o valor do Piso para R$1.597,87. No dia 24 de fevereiro o MEC anunciou o reajuste de 15,84%, o que significa que o valor do Piso dos Professores passa a ser de R$1.187,97. Uma diferença considerável.

Para Roberto Leão é importante que a Ação seja julgada agora. “Temos muitos estados em greve por culpa, principalmente, da má remuneração dos educadores. Convocamos nossas afiliadas a lutar pela correta aplicação do Piso. Temos a convicção de que não é justo protelar mais este julgamento e que o STF irá honrar a Casa votando não apenas a favor dos professores, mas de toda a nação que depende de cidadãos bem educados para levar o país rumo ao progresso”, concluiu. (CNTE)

sexta-feira, 11 de março de 2011

Decretos do Desespero

Profª. M. Alice Maria Souza Szezepanski


MEC sugere não reprovar aluno nos três primeiros anos do Fundamental: tenho pensado tanto neste tema que por vezes me vejo sem saber se estou emburrecendo ou se a aflição das pessoas em opinar faz com que digam a mesma coisa com palavras diferentes.
Ah! as palavras, quantos significados ganham para agradar quem as usa... só não podemos esquecer que para utilizá-las é preciso muita responsabilidade, principalmente para formadores de opinião.
Felizmente encontro alento em autores que tem tranquilidade opinativa (foi à expressão mais aproximada que encontrei para descrever minhas sensações). Significa aquela idéia passada por convicção autorizada pelo conhecimento do tema, sem arrogância. É o texto que não busca adeptos e seguidores pelo simples fato de é preciso que concordem com o autor e, tampouco, tem o tom raivoso de quem trata a história de forma leviana utilizando chavões e palavras de ordem (que sempre existirão, mesmo que sejam outras) inapropriadas para o momento da Escola brasileira.
Somado a isso e pior que isso é a invasão de conceitos e pensadores que se manifesta na desenvoltura com que são citados como parceiros de ideias que nem são deles, sabe aquelas do tipo: Freud explica isso quando diz...
Retomo dizendo que pelas minhas vivências na Escola, pelas experiências que fizeram e fazem parte da minha vida há vinte e cinco anos, tenho sido impelida a me preocupar com as instituições formadoras, seus currículos e, principalmente, suas relações de aprendizagens. Esclareço que não é uma avaliação voltada somente aos apelidados cursos de garagem, mas com as instituições reconhecidamente formadoras de licenciados e seus cursos de licenciaturas (ficou repetitivo, mas foi propositalmente).
Podem pensar o que isso tem a ver com a sugestão do CNE (Conselho Nacional de Educação) e do MEC (Ministério da Educação), em minha opinião muito, porque é uma tarefa difícil trabalhar na escola quando os professores não conseguem entendê-la como espaço de relações, de conhecimento, de gente.
Chegam muitos professores capazes nas Escolas, mas por vezes vêem seu trabalho desvalorizado porque têm que assistir atônitos a chegada de matemáticos, não professores de matemática; de pessoas “formadas” em literatura que não gostam de ler e não lêem pelos mais diferentes motivos ou desculpas; músicos (frustrados por não terem inventado o “rebolation” antes e ficado ricos), não professores de música... e assim a “nave vai” construindo (?) saberes desconectados, desinteressantes, inúteis, violência (principalmente do olhar e das escolhas docentes), dentre outros tantos tropeços, cumprindo um currículo traçado, nunca se sabe por quem, de forma linear pelo medo de ousar porque isso requer conhecimento.
Admiro muitos dos meus colegas em todos os níveis de ensino em que atuam, mesmo que não concorde com alguns, reconheço o esforço que fazemos e a preocupação que temos com nossos alunos e com a qualidade do nosso trabalho; minha fala não é pessimista e muito menos derrotista, tenho orgulho da minha profissão, mas a ação daqueles que não são comprometidos comprometem o trabalho de todos. Ressalto que a incapacidade para sala de aula não se limita aos “professores pó de giz”, como alguns leitores de orelha e rodapé a nós professores das Escolas, mas se estende para aqueles que atormentados pelas exigências do mercado educacional vigente produzem textos e textos e textos, porque tem que teorizar, tem que pesquisar para poder pontuar a instituição - não entendam que sou contra a pesquisa, ao contrário, só quero que seja relevante... o que e para que, é importante para a sociedade, faz diferença?, perguntinhas básicas.
Fico com a sensação de que temos uma sequência de quantificações sem produção inteligente. Pontua-se pela produção científica, que não significa atuação em sala de aula, porque temos que conseguir notoriedade e investimento; pontua-se a escola que tem melhor IDEB, que nem sempre significa conhecimento necessário para ser cidadão, que coloca o país inteiro dentro de um modelo, mas temos que alcançar os níveis internacionais para termos mais investimento... e a “nave vai”...
Assim, com este quadro vivemos dos, como chamo, “decretos do desespero”, portarias, resoluções, sugestões... para que possamos melhorar nossos índices internacionais, para que possamos dizer “estamos fazendo alguma coisa”, para que possamos amenizar o resultado das sucessivas propostas sem concretização, minimizar o desrespeito com a sociedade que paga, e muito, por uma escola de qualidade (cuidado ao utilizar esta palavra) e disfarça a fala inapropriada dos gestores que tratam Educação como “gasto” e não como “investimento”.
Todas essas considerações que podem ser desdobradas em outras tantas discussões e novas considerações me remetem a necessidade de escolhas e propostas éticas, fundamentadas, brasileiras, gaúchas, paulistas, cariocas, baianas, goianas... que aprovarão nossos alunos ou os reprovarão sem culpa ou disfarces, pois errar e acertar, ganhar e perder, vencer e perder faz parte da vida e é nela que a Escola está.
Pergunto-me e pergunto: será que tantos professores que só querem saber o dia da folga, que só reclamam que ganham pouco (e ganhamos, mas essa é outra discussão), que não estudam que não gostam de gente conseguiriam cursar e concluir um curso de licenciatura se percebessem a dimensão humana e intelectual que o trabalho exige?
Caso sigamos a sugestão do CNE espero que seja com responsabilidade, cientes de que esta mudança requer mudanças, exige desconstruções, humildade para errar e aprender. Que toda essa discussão nos leve a aprender que lidar com a frustração de que não podemos resolver tudo na Escola não é defeito, é humano, mas que tudo seja feito com serenidade e ética.
Portarias, resoluções, normativas, orientações, sugestões... aprovação, reprovação, seriação, ciclos, progressão, nota, parecer, alunos sentados em fila, alunos sentados em círculo... tudo vale à pena se a intenção não for pequena.

quarta-feira, 9 de março de 2011

E DEUS CRIOU A MULHER...

8 de março de 2011, DIA INTERNACIONAL DA MULHER




Neiff Satte Alam

Em meio translúcido, de temperatura agradável e mergulhado em um líquido acolhedor, o pequeno ser desfrutava de momentos de indescritível tranqüilidade. Um corpo pequeno, frágil, mas com um potencial de vida que, explorado na sua plenitude durante o resto de sua vida, poderia ser parte da solução de harmonização do planeta.
Este frágil ser movimentava-se em câmara lenta, mais parecia uma dança em ritmo de profunda harmonia com os movimentos do universo que o circundava. Quando começava a se sentir intranqüilo uma mão cheia de afeto e de amor incondicional suavemente deslizava por sobre as paredes que o protegia. Muitas vezes ouvia sons agradáveis que o deixava calmo e até sonolento. Outros momentos vozes e ruídos mais fortes o deixava irritado, desperto e angustiado, mas imediatamente aquela voz melodiosa o fazia retornar ao estado de alegria total.
Cada dia que passava, embora estivesse bem acomodado, aumentava sua expectativa sobre o seu destino. Algum dia deveria sair daquele lugar acolhedor e se lançar em uma aventura no mundo externo, que só conhecia pelos seus efeitos indiretos, mas que podia muito bem perceber.
Alimentando-se daquele corpo que o transportava, aquele pequeno ser cresceu. O ambiente espaçoso dos primeiros tempos já não parecia tão adequado às suas dimensões iniciais e originais. Precisava sair. Precisava nascer!
Pressionado por esta necessidade e obedecendo a seu instinto, inteligência inata impressa em seu DNA, começa a percorrer o caminho de saída. Percebe pelo seu próprio sofrimento o sofrimento do outro ser para que seu destino possa ser cumprido.
Entre gemidos de dor de ambos e vozes preocupadas de desconhecidos, mas que pareciam estar ajudando naquela caminhada, foi lentamente entrando em um novo mundo, mais complexo, mais agressivo, mas com muita luz e muitas oportunidades.
Esta criança ao nascer estava cumprindo com a magia da maternidade. O corpo da mãe a havia gestado dando-lhe alimento, calor, tranqüilidade e amor, muito amor.
Esta mesma mãe estava proporcionando ver a luz pela primeira vez e ainda, pelo mesmo amor, iluminaria o seu caminho para que aquela criança pudesse ir ao encontro ao seu destino de forma digna e cidadã.
Mãe e mulher, indissociáveis, formam a dualidade perfeita, pois em seu corpo, por obra do amor, forma-se um outro ser que terá que render homenagens permanentemente à mulher que o abrigou em seu ventre, deu-lhe o primeiro alimento, fez os primeiros gestos de amor e o entregou puro à sociedade.
Por isto tudo Deus fez a mulher depois do homem, pois necessitou aperfeiçoar sua criação, entregando a continuidade de seu trabalho à mulher.
Então, Ele descansou...

terça-feira, 8 de março de 2011

A Matemática e a Inteligência Emocional

Regina Al - Alam Elias


Várias empresas e escolas vêm admitindo a tese de que o sucesso depende mais dos sentimentos do que propriamente do Q.I. Essa maneira de pensar baseia-se na nova tendência de pesquisadores de diversas partes do mundo: a Inteligência Emocional.
Durante vários anos sustentou-se a quase certeza de que as pessoas bem dotadas, ou seja, as pessoas de Q.I. bem elevados eram sempre fadadas ao sucesso, independente da sua capacidade de se relacionar bem ou mal com o mundo.
Entretanto essa idéia foi posta em discussão pelo psicólogo e jornalista americano Daniel Goleman, em seu livro “Inteligência Emocional”. Baseado em uma consistente pesquisa, ele mostra que “o sucesso na vida repousa numa combinação bem temperada de pensamento racional agudo com controle e auto conhecimento emocionais”.
Goleman admite que, apesar das fortes características genéticas que cada pessoa carrega consigo, é possível aprender a controlar e a dominar, pelo menos parcialmente, os impulsos negativos como a ira, a ansiedade, a melancolia e os ímpetos repressores.
O professor de Matemática enfrenta um problema de ansiedade diante da disciplina que dificulta, de maneira bastante forte, a aprendizagem. De acordo com a nova teoria, seria bastante importante que o professor procurasse descobrir porque o aluno tem aversão à disciplina e quais as alternativas que ele sugere para eliminar o medo e a angustia que sente negociando saídas para o problema e colocando-a diante de uma realidade futura: enfrentar e resolver seus problemas do dia a dia.
Parece que não basta, com seu Q.I. elevado, o aluno tirar sempre dez em tudo. Ele vai precisar de uma socialização maior e de uma capacidade de dominar suas emoções.



Professores de Matemática com muitos cursos, existem em número bastante significativo. Se, em determinado momento, é proposto a um Professor, uma disciplina com a qual ele ainda não trabalhou, basta um tempo não muito longo para que ele se prepare, estudando e organizando suas aulas e o problema estará resolvido. Bastante difíceis de resolver são os problemas de relacionamento, autoritarismo e descontrole emocional que muitas vezes duram uma vida inteira e não são devidamente analisados ou não são levados a sério.
Quem não lembra de um professor de Matemática, que possuía estas dificuldades emocionais? Salvo melhor juízo, com raras exceções, eram professores “que sabiam muito”, mas não conseguiam “transmitir” ou eram “autoritários”, donos da verdade incondicional, verdade esta que estavam tentando dividir com um grupo de alunos com deficiências anteriores diante das quais ele lavava as mãos. Não significa que um bom currículo tenha perdido o seu valor. Pelo contrário, nunca foi tão valorizado. O que acontece hoje é que, em um concurso, ficará com a vaga o profissional que tiver um bom currículo como ponto de partida aliada a uma facilidade de se comunicar, um bom relacionamento humano com equilíbrio emocional e bom senso.
O que as pesquisas mostram é que os “gênios”, de Q.I. elevadíssimos, precisam avaliar sua Inteligência Emocional. E nós, de Q.I. normais, porque não faríamos esta avaliação?
Ao professor de Matemática, cabe não só a avaliação da sua Inteligência Emocional como a do seu aluno.
É preciso entender que, incentivando os medos, fazendo ameaças, ou menosprezando a capacidade de compreensão dos alunos, o professor só estará dificultando sua aprendizagem.
É preciso compreendê-lo quando ele erra, quando ele esquece uma regra ou uma fórmula, quando ele pede para repetir uma explicação. É preciso entender que determinadas situações embotam a capacidade de raciocinar rápido, sejam elas momentâneas ou permanentes.
O adolescente está passando, por exemplo, por uma transformação hormonal inquietante e que o torna extremamente carente de tudo, inclusive de limites. Cabe ao professor conseguir dosar seu “poder de mando” , impondo-se como conhecedor do conteúdo, como disciplinador de atitudes dentro da sala de aula, respeitando e sendo respeitado, mas ao mesmo tempo abrindo espaços para o aluno perguntar, vibrando com suas vitórias, incentivando-o a continuar suas tentativas de soluções por caminhos diferentes dos nossos, mas corretos.





O respeito ao aluno é algo que o anima a tentar, mesmo que ele erre, anima-o a fazer até onde sabe e perguntar como fazer dali para frente. Deixa-o a vontade para expor seus limites e dá ao professor a oportunidade de aparar as arestas dos conhecimentos ampliando sua aprendizagem.
“O Senhor é o professor que tira o trauma de Matemática?”, perguntava uma mãe angustiada de um universitário aflito a um professor que, com certeza, estabelecia uma relação com os alunos que favorecia e permitia a aprendizagem.
Quem quer realmente ensinar Matemática deve acreditar que o aluno vai aprender, apostando que ele é capaz e dizendo isto a ele. O professor ensina com sentimento e o aluno aprende com sentimento. Ocorre então, a verdadeira aprendizagem.
O professor que se preocupa com as emoções é atencioso, não grosseiro, não se irrita quando algum aluno não consegue seguir seu raciocínio. Sabe, também, enfrentar os problemas da eterna falta de pré-requisitos não jogando a culpa para os professores das séries anteriores, mas resolvendo-os de forma criativa.
Um aluno, certa ocasião, relatou que sempre encontrou dificuldades em Matemática, porque nunca foram dadas aulas para ele com “calor humano”. Os professores sempre foram frios e distantes, não demonstravam sentimentos. “A Matemática,” dizia ele, “é muito árida e as pessoas que me davam aulas também eram áridas”. No momento que a relação foi diferente ele passou a compreender tudo facilmente. Mostrar os sentimentos é fundamental para estabelecer o elo.
“Dizer a um aluno nervoso na hora de uma prova: “tu és capaz”, “tu sabes”, “confio em ti ”, “vai em frente”, “faz tudo o que sabes primeiro” pode ser decisivo para que ele mostre o que realmente sabe.
Ao dar uma aula, o professor deve olhar para cada um de seus alunos como se fossem únicos, pois o olhar no vazio de muitos professores transmite uma sensação de insegurança.
A Inteligência Emocional em Matemática vem reforçar a idéia do “bloqueio” emocional tão relatado pelos alunos e, muitas vezes, não entendido por pais e professores. A emoção que determina a atuação de um profissional determina, também, o nível de aprendizagem do aluno em Matemática.
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Texto escrito para análise e parecer de profissionais ligados ao ensino da Matemática

Bibliografia:
Goleman, Daniel. INTELIGÊNCIA EMOCIONAL.26a Edição.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Abandono

Neiff Satte Alam

Ali estava ele, sujo, maltrapilho, em completo abandono. Sabe-se lá que história poderia contar dos dias de grandiosidade absoluta em que dominava o ambiente de alguma sala de estar. Aquele enorme sofá jazia solitário em uma calçada frente a um terreno baldio.

Fiquei a imaginar o dia em que foi escolhido pela família inteira para ocupar o espaço principal em frente a uma televisão de 29 polegadas. Quantos filmes seus donos viram, confortavelmente sentados, após o jantar e com todos os cuidados para não manchar o fino tecido que o cobria. Sabe-se lá se não foi palco de romances que terminaram “em algum casamento” ou, pior, “terminaram com algum casamento”.

Era noite, apenas uma lâmpada de um poste da iluminação pública mostrava os contornos envelhecidos e mal conservados, o abandono do sofá só não era maior em razão dos olhares de piedade dos transeuntes que, como eu, pensava nos seus dias de glória. Sabe-se lá quantas vezes seus antigos donos desfrutaram de cumplicidade ao assistirem programas políticos e ouvirem afirmativas importantes de como fariam determinadas coisas ou como não fariam outras, por exemplo, prometendo cuidar dos idosos aposentados, dando-lhes um final de vida digno - mais digno que o final de vida daquele sofá.

Algumas vezes, solitário, sem ninguém a usufruir do assento, ainda novo e inteiro, era obrigado a ver programas de televisão de discutível qualidade, mas que ficavam a invadir sua confortável solidão, um descanso para suas molas.

Ah! Tinham também cães e gatos que se divertiam afiando unhas e garras no pano ainda com cheiro de novo, mas que estava destinado a ter irremediáveis rupturas nos fios perfeitamente tecidos e nódoas de substâncias mal cheirosas que destoavam dos desenhos e cores, outrora lindas, harmonicamente dispostas e bem ao gosto dos donos.
Foi neste momento de reflexão que percebi, junto a uma mola projetada por um buraco no assento, uma folha de jornal, não tão velha quanto o sofá, que, em letras “garrafais”, traduzia bem o sentimento dos transeuntes, talvez ainda em seus subconscientes, dizia: “O projeto que regulariza os proventos dos aposentados é barrado pelo governo”.

É isto, aquele sofá foi novo, bonito, útil e promoveu momentos importantes e positivos, mas, como os aposentados, cessada sua utilidade, foi abandonado em uma calçada qualquer da vida, expondo sua fragilidade e desutilidade a olhos que não querem ver, a ouvidos que não querem ouvir e tendo como lamento apenas o ranger das molas e, como memória, folhas de jornais acidentalmente presas a estas.

Roda de chimarrão

Neiff Satte Alam

Aos poucos o pessoal da vizinhança começava a se reunir na calçada. Cada um trazia sua cadeira e chimarrão a tira-colo. Tudo começava com um “boa tarde” e a oferta da cuia como forma codificada de pedir licença para entrar na roda de bate-papo de fim de tarde.
Opiniões de tudo que é jeito e das mais diferentes ideologias. O pessoal da UDN fazendo elogios ao Lacerda e o pessoal do PTB ao Jango, pois aquele verão de 1964 prometia surpresas ( que terminaram se confirmando) políticas que seriam aterrorizantes para alguns e motivo de alegria para outros. O Senado era um dos pontos de destaque, assim como a Câmara de Deputados. No que dizia respeito a nossa Vila Olimpo, a discussão era em torno do clássico de futebol que aconteceria no domingo. Os adultos conversando e as crianças brincando na rua, uns jogavam bola outros batiam papo, assim como os adultos estavam fazendo... e o chimarrão seguia de mão em mão.
Hoje não se faz mais roda de bate-papo nas calçadas, pois os riscos de assaltos são muito grandes, a novela das sete, das oito, das nove, os jornais da TV, o MSN, o Orkut, enfim, a Internet e sabe-se mais o quê, tira-nos do convívio, do olho no olho, das risadas compartilhadas, do movimento das crianças em suas brincadeiras e nos remetem para um mundo virtual, que deveria ser um apoio ao relacionamento mais íntimo entre as pessoas, mas, lamentavelmente promove um afastamento, pois não é utilizado de forma adequada, isto é, a informação e o conhecimento, disponibilizados pelo ciberespaço, têm endurecido as relações interpessoais.
Com o tempo saberemos utilizar este meio de comunicação para aproximar as pessoas, pois ocorre que pessoas que moram na mesma quadra se comunicam pelo MSN de forma efusiva, mas, ao saírem à rua, cumprimentam-se apenas com um aceno de cabeça ...
O espaço cibernético esta aí, pronto para ser utilizado, para romper fronteiras, para diminuir as distâncias entre os povos, para importar e exportar diferentes culturas, para romper com as amarras determinadas pelos governos autoritários e difundir idéias democráticas, para desfazer engodos propostos por propagandas tendenciosas e, finalmente, estabelecer as necessárias conexões entre as pessoas e as nações sem poluir os pensamentos e culturas diferentes, mas, mantendo as diversidades culturais e pluralidade ideológica, permitir que se valorize as coisas boas de cada cultura e que se rejeite ideologias predatórias e descomprometidas com o bem estar de todos.
Antes deste avanço para um mundo globalizado pelo ciberespaço, temos que retomar às nossas rodas de chimarrão nas calçadas, livres das ameaças de insegurança e abertos à comunicação presencial. Faz-se necessária a conexão entre o chimarrão e a internet, pois o dom da palavra não poderá ser substituído e esta estará enriquecida pela utilização das informações virtuais e as rodas de chimarrão continuarão a existir...

quarta-feira, 2 de março de 2011

A barata embaixo da porta.

NEIFF SATTE ALAM
Embaixo da porta, em uma minúscula fresta quase impossível de ser ultrapassada por qualquer ser vivo, duas antenas movimentavam-se suavemente como se estivessem estudando o ambiente e verificando se havia algum perigo no recinto.
Mantive-me quieto, evitando qualquer movimento ou ruído que pudesse assustar o animalzinho dono daquelas imensas antenas. Lentamente foi surgindo a cabeça e parte do corpo de uma barata, seus olhos facetados me encararam de forma diferente e incomum para um inseto asqueroso e que tanta ojeriza causa a nós humanos.
Para minha surpresa, o inseto queria estabelecer um diálogo, pois se tratava de uma barata de alta linhagem e muito preocupada com sua espécie. Em um primeiro momento achei que estava enlouquecendo: “ uma barata querer bater um papo”? Não, não estava louco, pois a barata, de uma forma que não estava bem clara, comunicava-se perfeitamente. O futuro de sua espécie estava ameaçado. A forma como nós, humanos, estávamos conduzindo as relações com a natureza eram uma garantia para que as baratas atingissem o controle do planeta.
Questionei pela lógica de tal afirmação e obtive uma resposta imediata: “os humanos estariam tentando modificar todo o quadro favorável ao destino das baratas ao se reunirem na Dinamarca”. “Em seus livros (pensei que elas só comiam os livros) havia várias descrições de uma espécie que surgiria para mudar a face do planeta e permitir condições de sustentabilidade à sua espécie”.
Não entendi! Pior, entendi! Havia a expectativa do surgimento de uma espécie que produziria toda uma mudança no planeta. Esta mudança implicaria em alterações climáticas, distribuição de grande quantidade de lixo, destruição de um grande número de espécies que eram inimigas das baratas e mais outras tantas alterações altamente vantajosas.
“Agora”, disse a barata, “estão tentando reverter este quadro altamente satisfatório; querem reduzir este maravilhoso e suculento lixo orgânico que serve tão eficazmente como alimento de nossas baratinhas, futuro do planeta, que começam a entender o seu papel de defensores perpétuos da vida na Terra”.
“Quantas baratas tiveram suas vidas ceifadas por solados de sapatos e chinelos; quantas foram intoxicadas ao se alimentarem de cuecas e meias infestadas deste tal de dinheiro, ali enfiados por humanos maquiavélicos (era uma barata que lia os livros antes de comê-los)”. Enfim, desfiou um rosário de motivos para mostrar todo o sofrimento esperando um mundo mais adequado, mais sujo, mais desequilibrado; um mundo cheio de casarões com porões esquecidos, com casebres insalubres nas favelas e outros tantos bolsões de miséria onde predominasse falta de saneamento básico e total desamparo das pessoas que, ou produziam lixo ou viviam do lixo produzido, mas de qualquer forma muito útil para as baratas.
Tentei mostrar que apesar de asquerosa e combatida por um sem número de inseticidas, era necessária, assim como os demais seres vivos para manter um saudável equilíbrio. Claro que, para isto, muitas teriam de morrer (não confessei que o objetivo foi sempre o extermínio delas e de quase todas as outras espécies animais e vegetais), pois cada espécie teria que manter populações estáveis e que não comprometessem as outras, uma mentira deslavada, pois todos os procedimentos humanos vão no sentido de eliminação de todos os seres que não interessam aos propósitos economicistas da espécie humana.
A barata fez um movimento que pareceu uma risada de deboche, fazendo-me crer que não acreditou em uma palavra, mas ciente que na Dinamarca nada iria acontecer de mais grave, o que a deixava tranquila. Para que não divulgasse minha ingenuidade às outras baratas, dei uma chinelada na linguaruda, juntei seus restos com uma pá de lixo e fiz de conta que tal diálogo nunca tinha acontecido

terça-feira, 1 de março de 2011

Afinal, que tipo de progressão estamos falando?

Neiff Satte Alam

A Resolução do Conselho Nacional de Educação que recomenda que os três primeiros anos (Ensino Fundamental) sejam sem reprovação, vem causando uma série de polêmicas, principalmente em razão da indefinição sobre que tipo de regime de progressão está se falando ou, o que é mais polêmico ainda, se está se propondo um regime de progressão híbrido.
Para que se faça está análise é importante que se leve em consideração que existem dois tipos básicos de PROGRESSÃO: Por ciclos ou por série. O que está em discussão, pelo menos no caso do Rio Grande do Sul é a forma de PROGRESSÃO POR SÉRIE, sem reprovação, até a terceira série do Ensino Fundamental, isto é, não temos o regime de PROGRESSÃO POR CICLOS no Sistema Estadual de Ensino e na maioria dos Municípios, mas, talvez, pretenda-se inserir um “mini-Ciclo” nas 3 primeiras séries.
De qualquer maneira, é obrigação da Escola o aprendizado do estudante e que atinja os níveis mínimos de habilidades e competências, logo, seja ao final do ciclo (quando for o caso) ou ao final da série, sua passagem para a série seguinte ou ciclo seguinte passará por um processo de avaliação, isto é, aprovado ou reprovado, seja na série, seja no ciclo.
O grande equívoco neste caso, a meu juízo, é querer se constituir um sistema hibrido de progressão, isto é, as três primeiras séries do Ensino Fundamental serem por CICLO e as demais uma progressão por SÉRIES. Uma invenção que só poderá dar certo se revermos todos os Projetos Político Pedagógicos das Escolas, pois teremos que utilizar uma pedagogia distinta entre os diversos segmentos desta progressão “híbrida”.
Não se trata, portanto, de sermos contra ou a favor desta resolução, mas, mais importante do que isto, sabermos exatamente os motivos que levaram o CNE a propor esta postura. Em São Paulo, por exemplo, já há um sistema estadual de Progressão por Ciclos, a aprovação será de um ciclo para outro, muda o tempo de “aprovar ou reprovar”, mas rigorosamente dentro de um planejamento onde este tipo de progressão é institucional, mais objetivamente, o aluno somente será aprovado ou reprovado ao final de cada ciclo e não ao final de cada ano, como no caso da Progressão por Séries, que é a situação predominante no nosso Estado.
O que importa ao final, é que o aluno aprenda e se inclua em um grupo de pessoas que possa usufruir das oportunidades de trabalho, emprego e renda e que construa as competências necessárias para se incluir no mercado de oportunidades cada vez mais especializado.
Felizmente este tipo de discussão não passa por instâncias político-partidárias, embora a Presidente Dilma, na campanha presidencial, tenha se manifestado a respeito do tema: (TV Bandeirantes, em agosto de 2010) "As crianças devem ter seu conhecimento testado", afirmou a petista, ao ressaltar que “as avaliações são necessárias para diagnosticar o setor”, disse. Já o MEC, neste ano, Governo Dilma, apóia a Resolução do CNE.
Pelo que presumo, os “especialistas” terão muito que pensar e muito mais ainda para fazer, antes que se perca o controle da situação. De qualquer forma, como está posto: simplesmente aprovar até o terceiro ano do fundamental em um sistema de progressão em série é absolutamente incorreto.