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segunda-feira, 14 de novembro de 2011

RESUMO DE UMA HISTÓRIA



 Antônio Saraiva
Este resumo pertence ao livro “Joaquim Antônio Saraiva: Um Bravo Republicano”, Ed. UFPEL, Pelotas, 2006 .
No ir e vir dos arados puxados por juntas de bois aos poucos aquelas coxilhas iam mudando de cor, do amarelo e verde que mais predominava até então, agora se transformava em preto que era o tom da terra daquela região montanhosa. De longe se via e ouvia os lavradores que gritavam com seus animais para andarem mais depressa e lavrarem o máximo, enquanto tinha umidade na terra, da boa chuva que havia caído naqueles últimos dias.
Quanto mais rápido os animais andassem, mais a leiva de terra que era jogada pela pá do arado deitava, enterrando as flores de malmequer.No outro dia bem cedo alguém com uma grade puxada por uma parelha de cavalos gradeava a terra que fora lavrada, aproveitando o tempo antes que a mesma secasse.Meses de primavera, meses da flor amarela como eram conhecidos naquela região,mas os agricultores entretidos em preparar as lavouras para o milho e o feijão até esqueciam-se da falta do dinheiro que era comum nessa época do ano.
Era uma verdadeira paisagem para quem olhasse à distancia aquele cenário,começava no fim do mês de agosto e se estendia até os meses de novembro e dezembro as preparações das lavouras para esses plantios. Era uma época de muita fartura naqueles anos da década de sessenta, os agricultores não precisavam usar adubo ou pesticidas, as terras eram fortes e as plantações não eram atacadas por nenhuma praga.Uma estrada de lindeiros cruzava por entre as pequenas propriedades daqueles colonos,a maioria descendentes de portugueses e açorianos.
Seus antepassados tinham vindo dos países de origem no ano de 1737, desembarcaram de um navio no porto de Rio Grande e, ficaram por algum tempo morando nos arredores daquela cidadezinha marítima até que no ano de 1800 foi liberado um novo distrito que recebeu o nome de Canguçu, derivado do Tupi Guarani Canguçu, nome de uma onça pintada da cabeça grande que habitava nessa região de serras e montanhas.
Neste ano de 1800 estes filhos de Portugueses e Açorianos foram enviados ao recém li- berado distrito, para desbravarem essas terras virgens. Era uma região habitada por índios, Tapes e Tapuias, guaranizados e subordinados aos guaranis. Parte desse imenso então distrito formada por serras e montanhas, recebeu o nome de Serra dos Tapes em memória da tribo que ali habitava. Estes índios como tantos outros que já ouvimos falar preferiram lutar até a morte, do que deixar se escravizar. Os soldados imperiais com o respaldo destes portugueses e açorianos que receberiam as terras, varreram com quase todos os nativos machos, poupando as índias, com as quais muitos deles constituíram famílias.
Ouvem-se muitos relatos de índias que foram pegas a cachorro, para depois tornarem-se esposas de alguns destes invasores.
É uma história de muitas lutas e selvagerias, era a lei do mais forte, uma terra de ninguém, com um pouco de astúcia e coragem os mais espertos levavam vantagens recebendo maiores quantidade de terras e salários, atuando como coronéis de determinadas regiões..
Não é difícil imaginar um cenário assim, onde não existia lei, onde tinham que contar só com os fios de bigodes daquele povo quase selvagem, sem escolaridade, a instrução que recebiam era dos pais e o principal mandamento era que “desaforo não se leva pra casa”, o que podia se esperar de um povo assim.
Várias famílias foram enviadas para este novo distrito como desbravadores, recebendo uma sesmaria como recompensa..
Algumas destas famílias podem ser identificadas nos dias de hoje, pelos seus sobrenomes que deram nomes a zona onde habitaram, entre os quais temos o Passo do Saraiva, Coxilha dos Piegas e, Cerro dos Cunhas situados na Quarta Zona de Canguçu, isto é apenas um exemplo, mas se procurarmos vamos encontrar mais outras localidades com o nome de família.
Era um povo determinado com um objetivo em mente, fazer aquelas terras virgens produzirem, criando gado, cavalos, ovelhas e porcos; Plantando trigo, milho, feijão, etc.
Mas seria a pecuária a base da economia daqueles pioneiros, na vizinha cidade de Pelotas à pouco mais de 60 quilômetros o comercio do charque começava a se expandir no estado, com um retorno financeiro compensatório.
O charque produzido nas charqueadas situadas nas margens dos rios da cidade de Pelotas abastecia grandes províncias do país, como Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo e nordeste, esta carne seca era usada na alimentação dos escravos. Com o passar dos anos, países vizinhos como o Uruguai e Argentina que também eram grandes produtores do charque tornaram-se fortes concorrentes pelo preço e qualidade do produto.
Nestes anos já de 1830 o governo do império nada fez para resolver a questão, motivo pelo qual que em 1835 uma parte do povo gaúcho revoltado com a situação levantaram-se em guerra contra o império implantando seu próprio governo, iniciando uma guerra que durou 10 anos, a Revolução Farroupilha.
Nesta guerra os gaúchos se separaram em dois grupos, os que eram a favor do império e os que eram contra, estes últimos eram os Farrapos. O novo distrito de Canguçu que ainda pertencia ao município de Piratini era um reduto Farroupilha em que a família Saraiva fazia parte. Entre os imperialistas estavam os Piegas e os Cunhas que eram famílias proprietárias de grande extensão de terra e gado, os soldados imperiais costumavam a acampar nestes campos com a autorização dos proprietários.
No final dos dez anos de combates, Duque de Caxias foi enviado pelo governo imperial como pacificador, conseguindo um acordo que os Farrapos assinaram em 1”de março de 1845, ficando sob o domínio do império, foi uma época de grandes perseguições contra os Farroupilhas por parte dessas famílias gaúchas que apoiavam o Imperador, fala-se em quarenta mil famílias de Farrapos que tenham debandado para o Uruguai e, entre essas famílias estavam os Saraivas.
Quarenta e oito anos depois o sonho desses gaúchos que defendiam a república se realizaria em todo o pais sem nenhuma resistência do Imperador D Pedro II, o império havia falido, mas agora teria que ser decidido qual o sistema de república regeria a nação, era um assunto pra os gaúchos resolverem e, em 1893 os gaúchos que defendiam uma república parlamentarista pegaram em armas novamente travando uma revolução de 2 anos que ceifou a vida de milhares de pessoas.
Nesta época destes acontecimentos muitos gaúchos que pertenciam as famílias dos Farrapos haviam retornado do Uruguai. Agora estavam envolvidos em um episódio diferente, o motivo não era mais lutar contra o império para estabelecer a República, mas qual o sistema de República, presidencialismo ou parlamentarismo, os Marechais Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto que foram os primeiros presidentes da República eram presidencialistas, aqui no estado o Dr. Júlio de Castilho foi empossado em 1892, defendendo o presidencialismo com unhas e dentes.
Entre os milhares de famílias “farrapas” que haviam debandado para o Uruguai perseguidos pelos imperialistas após á revolução Farroupilha, agora já haviam se multiplicado, pois já passara quase meio século, aqueles que eram apenas um rapazinho, agora tinham filhos e netos.
Manuel Saraiva do Amaral (neto) que nascera em 1836 na quarta zona de Canguçu, (Passo do saraiva) e sido registrado no cartório do Cerrito distrito que na época também pertencia a Piratini, foi um dos que retornou do Uruguai com a sua esposa, filhos e netos ainda pequenos.Manuel comprou uma fração de terras no primeiro distrito de Canguçu, Coxilha dos Campos e por ali ficou morando com a família.
Nos últimos anos do império houve muitas perseguições políticas e, os que defendiam o imperialismo não estavam contentes com a situação, pois sabiam que perderiam muitas regalias com a caída do império, tinham que a qualquer custo intimidar os republicanos que estavam crescendo cada vez mais com o retorno dos que voltavam do Uruguai, por isso houve muitas mortes e vandalismos que ficavam impunes.
Entre os perseguidos e jurados de morte estava Manuel Saraiva do Amaral que era neto do fundador do Passo do Saraiva e de quem herdara o nome, os perseguidores eram gente graúda, pois Manuel foi até as autoridades da vila registrar uma queixa dessa ameaça contra a sua vida e, as autoridades deram-lhe garantias dizendo-lhe, podes ficar tranquilo que nada de ruim vai lhe acontecer. Como estas autoridades poderiam dar esta garantia sem nenhuma ação policial, a menos que os criminosos fossem gente do meio deles.
Manuel vendeu um gado e precisou ir até Pelotas, cidade vizinha, ficava localizada a uns 100 quilômetros de distancia, iria depositar o dinheiro da venda de um gado no banco desta cidade, levou dois companheiros como prevenção, mas não foi o suficiente, porque num paradouro de carreteiros a uns 40 quilômetros antes de chegar na cidade, foram os três mortos em uma emboscada feita por uma quadrilha de uns 5 ou 6 homens bem armados.
As famílias das vitimas procuraram por justiça, mas nada foi feito a respeito, então o filho mais velho de Manuel, Joaquim Antônio fez a justiça com suas próprias mãos, vingando a morte do pai e tomando partido na revolução, lutando pelo o governo Júlio de Castilho que havia sido empossado legalmente.
Relata-se que muitos lutaram nesta revolução por motivos de vingança, foi uma das revoluções mais sangrentas das Américas, em dois anos ceifou a vida de mais de dez mil pessoas.

sábado, 12 de novembro de 2011

“Caim”, de Saramago

Neiff Satte Alam



Brincando com o tempo e colocando Caim no lombo de um jegue, Saramago faz uma interessante leitura do Velho Testamento. De fratricida a herói, como se fosse uma releitura das relações entre Dr.Frankenstein e sua criatura, Caim circula pelo tempo desafiando o Criador.

Imortal e atemporal, ele e seu jegue, avançam e recuam no tempo sempre dentro dos principais acontecimentos registrados no Velho Testamento. Foi ele, Caim, que na cena em que Abraão vai sacrificar seu filho Isaac a pedido de Deus, interferiu para que tal crime não ocorresse: “.... Então por que quiseste cortar-me a garganta como se eu fosse um borrego, perguntou Isaac, se não tivesse aparecido aquele homem para segurar-te o braço, estarias agora a levar um cadáver para casa.” Esta é uma pequena demonstração da aventura literária sobre um Caim aventureiro, nem bom, nem mau, apenas um emissário imortal que desafiou o Criador a quem culpa pela sua sorte, pois sempre entendeu Caim, segundo Saramago, que desde a ruptura de seus pais, Adão e Eva, com Deus até todos os desastres que atingiram a humanidade, a responsabilidade primeira seria Dele, que tudo pode!

O livro tem momentos de humor refinado e transcrição de cenas eróticas onde Caim é sempre o ator principal.

Como as viagens no tempo não eram somente em um sentido, em vários momentos o nosso personagem se viu no passado de um futuro já visitado. Assistiu a queda das muralhas de Jericó; construção e destruição da Torre de Babel, finalmente encontra-se com Noé e sua família, auxilia na construção da arca, assim como vários anjos. As relações entre Caim e os membros da família de Noé se constitui em uma trama de sexo e assassinatos que nos permite interpretar estas últimas cenas como uma transposição da realidade contemporânea para todo o caos imaginado pelo autor. Caim, o da história de Saramago, é a própria humanidade. Finalmente destrói toda a obra do Senhor Deus, pois, matando Noé e toda sua família, fica só e discutindo com o Criador:”...Depois Caim disse, agora já podes matar-me. Não posso, palavra de Deus não volta atrás, morrerás da tua natural morte na terra abandonada e as aves de rapina virão devorar-te a carne.” “...Sim, disse Caim, depois de Tu primeiro me haveres devorado o espírito.” A resposta de Deus não chegou a ser ouvida, também a fala seguinte de Caim se perdeu, o mais natural é que tenham argumentado um contra o outro uma vez e muitas, a única coisa que se sabe de ciência certa é que continuaram a discutir e que a discutir estão ainda...”

Querem saber mais desta aventura literária e, mais importante, interpretá-la ao sabor de sua vontade, como fez Saramago com o Velho Testamento? Leiam o livro e continuem a discussão, sem medo e sem tempo...

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

A HARMONIA DA PRAÇA

 
NEIFF SATTE ALAM

Hoje, entre os ramos, a canção sonora
Soltam festivamente os passarinhos.
Tinge o cimo das árvores a aurora...
Olavo Bilac, estrofe do soneto “Como a floresta secular”

            Em cem anos um ecossistema artificial e com finalidade de lazer poderá adquirir personalidade e se impor sobre idéias simplistas de harmonia projetada por olhares reducionistas e que, por este motivo, só enxergam por prismas lineares e não relacionais.
            Após cem anos um ecossistema artificial poderá ter sua estrutura, auto-organizada com propósitos de uma busca natural de equilíbrio, desestabilizada em razão de motivos de inexplicável incoerência.
            Esta é nossa praça Cel. Pedro Osório.
As árvores quando foram ali plantadas seriam obviamente frondosas e disputariam espaço com as suas vizinhas na medida em que fossem crescendo, aprofundando raízes, emitindo galhos, folhas e flores. As raízes destas árvores com certeza cresceriam, atingiriam limites imagináveis por quem as plantou. Aqueles que realizaram os plantios iniciais gostariam de viver o suficiente para poderem sentar a sombra destas árvores e observarem as mais diferentes espécies ali plantadas e que representam um pedaço de cada canto de nosso país, de nosso continente e até de outros continentes.
A fonte colocada ao centro deveria concorrer, e o faz, com as árvores que se ergueriam majestosas completando a harmonia daquele ambiente.
Após este plantio inicial, estudado e programado, outras árvores, por outros motivos e em razão de um mobilismo cultural natural, foram plantadas. Não estava, por exemplo, nos planos iniciais o plantio de uma muda de Pau-Brasil pelo poeta Olavo Bilac, mas nem por isto deveremos tirar esta árvore por não fazer parte do planejamento original da praça. Assim como esta árvore, outras foram plantadas pelos mais diferentes motivos que talvez ninguém mais recorde, mas estas árvores conseguem, pela sua presença, anonimamente dar vida a estes atos do passado.
A era da moto serra parece ter obscurecido a capacidade de ver a harmonia de um conjunto tão fantástico de flora e que abriga um número não menos fantástico de fauna. Não será uma mera conceituação de praça e de parque que servirá de argumento para derrubada de árvores na Praça Cel. Pedro Osório, mas, se este for o caso, que se mude para Parque, pois qualquer decreto legislativo poderá resolver isto, claro, sem considerar que está argumentação não salvou da moto serra inúmeras árvores no Parque Dom Antônio Zattera (ex- Júlio de Castilhos).
Talvez, em pouco tempo, ninguém mais lembre disto. Talvez nada disto escrito acima tenha relevância perto dos outros problemas que nos afligem, mas, se não soubermos enfrentar estes pequenos problemas de nossa cidade, como poderemos enfrentar os problemas maiores? Se não nos indignarmos com estas pequenas coisas como poderemos nos indignar com problemas de magnitude maior?
Se estas perguntas não merecem respostas, sentemo-nos na praça para curtir o que sobrar, com certeza muito bonito, mas não será a mesma praça, as mesmas sombras, a mesma harmonia, será uma outra. Quem sabe, hoje, Olavo Bilac plantaria uma outra árvore e dedicaria a ela esta estrofe  de seu soneto “Velhas Árvores”:
Olha estas velhas árvores, — mais belas,/ Do que as árvores mais moças, mais amigas,/Tanto mais belas quanto mais antigas,/ Vencedoras da idade e das procelas . . .


CONTEXTUALIZAÇÃO
            Ano de 2006. A Praça Cel. Pedro Osório, centro de Pelotas, começa  ser recuperada. Os passeios, bancos, banheiros e lago artificial são restaurados e as árvores são... arrancadas! Várias explicações foram dadas, mas não convenceram e lamentavelmente um número elevado árvores foram cortadas. Nós apenas podemos lamentar!

terça-feira, 25 de outubro de 2011

UM TEMA PARA REFLEXÃO




 
NEIFF SATTE ALAM

Com toda a tecnologia atual; com o planeta reduzido a uma pequena ilha no universo, onde a um toque de teclado ou em uma tela pulamos de um continente a outro sem que se saia de casa, sobra tempo para filosofarmos sobre a origem e o destino da humanidade.
Nos séculos anteriores, com um horizonte de conquistas amplo, embora muitas vezes não percebido, cientistas, filósofos e artistas conseguiam fazer seu papel de busca de fantástica chance de sucesso. Hoje, com ampliação do conhecimento tecnológico e a redução do espaço para novidades filosóficas e artísticas, deparamo-nos com uma encruzilhada comportamental frente ao progresso e aos outros seres humanos. Paradoxalmente, reduzimos nossas conquistas humanísticas ao ampliarmos nosso horizonte tecnológico.
Há uma virtualidade exagerada nas relações interpessoais e uma escassez de presencialidade nestas relações. Os sites de relacionamento, que deveriam, pela lógica, aproximar as pessoas, está cada vez mais distanciando umas das outras.
As conversas de “roda de chimarrão” nas calçadas, ou embaixo de alguma árvore ou caramanchão foi reduzida a troca “emeils”, por mensagens no Orkut ou pelo Facebook, enfim, não filosafamos mais com os vizinhos, amigos e colegas.
A filosofia e a arte, para ficarmos apenas nestas atividades humanas, perderam brilho e importância na relação com o universo tecnológico, com isto a sociologia, antropologia e outras áreas do conhecimento se enfraqueceram, aumentou a hominização, mas diminuiu a humanização.
No entanto, a cultura impressa em nossa memória, associada a uma educação com um ensinar/aprender que se utilize desta tecnologia toda e não fique refém destas conquistas, poderá recolocar o humano e o social em um patamar que permita a retomada  de novos caminhos.  
A humanidade terá que optar por uma destas realidades: ser o pensamento que alimenta a máquina ou dobrar-se às formas de pensamento permitidos pela máquina.
O espaço da Filosofia, da Arte e da Sociologia tem que ser imediatamente recuperado, já nos bancos escolares da pré-escola, como forma de sustentabilidade cultural/educacional, pois o que fizermos do hoje com nossas crianças será o que terão de qualidade de vida, dignidade nas suas atividades laborais e respeito nas relações com o planeta e com os seus semelhantes.
É urgente associarmos as coisas boas do passado com as conquistas do futuro: este é o nosso presente, nossa realidade e o que fizermos dela será o que seremos no futuro...

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

O MAU E O BOM JARDINEIRO

Neiff Satte Alam



Aquele jardim era para lá de bonito e organizado. Não havia uma distribuição simétrica entre as plantas, pois estavam perfeitamente distribuídas formando um equilíbrio próprio, era pura harmonia.

Duas árvores de porte médio, com florações em épocas diferentes, davam majestade ao ambiente; caminhos de pedregulhos ladeados por grama com tufos altos e escuros que separavam estes caminhos de uma grande variedade flores, tão abundantes quanto as cores que, aleatoriamente distribuídas, pareciam uma pintura impressionista de deixar Monet com inveja.

Em alguns dos canteiros, de forma irregular, apareciam pequenos lagos cujas plantas concorriam em beleza com as demais, além de refletirem sobre sua superfície as cores do céu, às vezes azul, outras colorido pelo entardecer ou amanhecer, nunca repetindo as cores e nuances dos dias anteriores.

Aves e insetos em uma concorrência de beleza e movimento, completavam a beleza daquele ambiente.

O jardineiro se orgulhava de seu feito, sentado em um tosco banco de madeira, deitava seu olhar por sobre as flores, por vezes cochilava para sonhar que ali estava o paraíso.

Por um tempo, não muito longo, o jardineiro teve que se afastar do jardim, um outro ocupou seu lugar, mas, sem os mesmos cuidados, sem a mesma experiência, permitiu que plantas invasoras, com suas artimanhas de envolvimento e gavinhas que, prendendo as tenras plantas desprotegidas, lentamente foram destruindo a harmonia daquele jardim; ratazanas, gralhas e outros predadores, iniciaram um processo de desarmonização e o jardim foi perdendo sua beleza, seu viço e as cores, antes alegres, passaram a ser símbolo de decadência.

Em um momento ou outro, em uma outra parte do antigo jardim, algumas das antigas plantas relutavam em voltar aos bons e belos tempos ... em vão, pois destruir é mais fácil de construir; fazer o feio é mais fácil que fazer o belo; desarmonizar é mais fácil que harmonizar.

Um dia o antigo jardineiro voltou e, ao ver o seu jardim, sem mudar a expressão de seu rosto, sem fazer nenhum movimento facial, com olhos estáticos, chorou, grossas lágrimas rolaram pela sua face, molharam o solo seco e maltratado ... Milagrosamente, duas sementes começaram a germinar e um novo jardim começou a se formar.

Assim também é na política onde os políticos são os jardineiros. Existem bons e maus políticos, existem bons e maus jardineiros. Mesmo que alguns políticos, administrando mal, destruam os jardins, sempre poderá surgir um bom político que recuperará o jardim, irrigará o solo, eliminará as plantas daninhas e não permitirá que predadores destruam sua obra...

sábado, 1 de outubro de 2011

Ricardo Gurvitz viajante e gourmet

Esta é uma homenagem ao meu amigo RICARDO GURVITZ,  que continua sua viagem pelas estrelas...


O MUNDO É UM MERCADO
Você comeu seu arroz hoje? Assim dizem os chineses ao nosso conhecido BOM DIA.


O BATALHÃO PRECURSOR (PARTE II) –Skopye, Macedônia


Falei de John, domingo passado, um tipo de abre-alas das equipes de filmagens em assuntos turísticos. Depois de tudo marcado por apenas um homem, os roteiristas teriam a sua oportunidade de entrar em cena. São eles que ditarão as seqüências que o/a artista central vai mostrar na tela. John disse que eles só saberiam como agir e apresentar no dia que chegassem. Muitas tomadas de cenas são preparadas para inserção futura no filme como se o artista estivesse por lá. Coisa que só acontecerá na nossa imaginação. Respostas são dadas para perguntas que ele somente fará muito tempo mais tarde. Comidas serão preparadas e ele só provará em uma outra data. Algumas entrevistas mais importantes esperarão para serem feitas por ele. Para uma única película, serão feitas não centenas de horas de filmagens, mas milhares. Muitas vezes, uma câmera ficará por horas e mais horas ligada, somente para recolher a imagem de uma borboleta ou de alguma onça. O pior que pode acontecer, muitas vezes, é quando vão recolher o material, e a grande surpresa é que foi tudo roubado. Nesse momento, o grupo que conversava com ele, levanta uma questão: se não consideraríamos impossível para pobres viventes, como nós, com uma pequena câmera, fazer um bom filme de viagem. Ele riu e respondeu que chegavam a filmar mais de três mil horas no conjunto de todas as máquinas, para sobrar no fim, um pedaço de filme que durasse apenas uns trinta minutos. Acho que todos éramos muito pretensiosos. Aqueles que possuíam câmera de filmagens as esconderam, pois, lá no fundo, todos esperariam um dia ganhar um Oscar pelo seu trabalho. Os profissionais, dependendo do lugar, chegavam a alugar helicópteros, gruas, carros, barcos e caminhões. Isso seria impossível para qualquer um de nós. John sorria e nos incentivava a continuar filmando e fotografando. Considerava ser nossa função inocular a virose de viagens em outras pessoas, além das nossas próprias famílias. Ele começou a sua vida profissional com esse tipo de filmes, os mesmos que nós sempre acabamos por encher o saco de nossos visitantes. Eu já abandonei as filmagens há muito tempo e sempre pergunto a todos aqueles que filmam as suas viagens: quantas vezes elas foram vistas depois? As respostas variam entre duas e três vezes. Raramente ultrapassam esses números. Ainda acrescentou que isso valia para fotografias. Informou que, de um único ponto, tiravam mais de quinhentas fotografias em diversos ângulos, dependendo da luminosidade e, principalmente, com a utilização de filtros, os quais os amadores nem desconfiam existir e, ainda por cima, a maquiagem que as fotografias sofrem. Pobres neófitos. Ninguém mostrou coragem de puxar as máquinas e mostrar alguma coisa, pois saberiam que este ato acarretaria ser julgados pela pesagem do coração (livro dos mortos dos egípcios) para saber da condição de sua obra. Naquele momento, eu já havia feito perto de duzentas fotografias em cinco ou seis cidades. Será que eu teria coragem de mostrá-las? Claro que não! Entretanto, queríamos mais: mais informações, mais ensinamentos, mais vivência. Uma pergunta foi feita por um francês: - o que faziam quando chegavam a um lugar e não parasse de chover? Grande pergunta! Uma das saídas era começarem as tomadas internas, tentar que a história pudesse ser contada mesmo com chuva. O que era muito difícil. Gravarem as entrevistas com uma pessoa no lugar do artista principal, para que depois, por trucagem, repetirem as perguntas que seriam colocadas no filme. Indagamos também sobre os possíveis perigos. Essa era uma parte importante da atuação de John. Precisava localizar as zonas de perigo e saber como poderiam ser contornadas. Veio a minha lembrança que, quando o cantor Mickel Jackson cantou na rocinha, alguém negociou com traficantes a segurança do astro; não foi a polícia que deu a devida proteção. Isso para ele era coisa comum. Vivia convicto de que para cada problema, haveria uma solução. Já havia passado por situações difíceis, complicadas e até ridículas. Já fora confundido com traficante, mafioso, comprador de animais selvagens até como um proxeneta. Então, agora se considerava um homem de mil vidas. Aqueles que ali estavam e o cercavam éramos todos viajantes e o entendíamos muito bem, pois já havíamos passado, em algum momento, por circunstâncias embaraçosas e enleadas. Acabávamos usando como saída a utilização de criatividade ou de um pouco mais de coragem do que a utilizada em uma viagem dirigida por um guia que, normalmente, não arrisca e nem pode arriscar, sob pena de ser demitido ou processado. Nós que viajamos por conta própria e risco, não tínhamos tanto cuidado; inclusive já tivemos o nosso tradicional episódio de comer algo que acabou em uma bela diarréia. E o pior, não poderíamos culpar alguém. Quantos de nós já havíamos nos metido em enrascadas, mas estávamos todos ali, ávidos de novas viagens e conhecimentos. Não havia, no nosso dicionário a palavra desistir. Cada um com seus interesses próprios. Falei a John dos contrastes de um Brasil, interiorano onde ainda se podia viajar com alguma tranqüilidade e do Brasil em que os riscos estão presentes, quase como na guerra no Iraque. Não foi nenhuma surpresa para ele. Sabia de tudo com detalhes, mesmo sem ter visitado o nosso país. O que mais chamou a sua atenção: o apagão aéreo. Já havia vivido grandes atrasos em sua vida, mas na maioria foram devidos a condições atmosféricas como: furacões, nevascas, aguaceiros, ventos muitos fortes e, uma vez, conviveu com um princípio de revolução. Mas sem explicação lógica, que convencesse, nunca conseguiu entender, assim como eu pensava. Para mim, tudo não passou de uma grande cafajestada e briga de pavões. Preferi, ao invés tentar explicar-lhe, fazer uma pergunta: já que viajava tanto, como curtia as férias? A resposta era um contra-senso para nós: - fico dentro de casa, com minha mulher e filhos sem querer saber de gente. O local mais longe que desejava ir era o supermercado. Eu estava, naquele momento, a mais de dez mil quilômetros de minha casa.





Essa é a minha opinião, depois de ter visitado cinqüenta países.

Jogo de palavras

NEIFF SATTE ALAM



Três palavras: Engenharia, Educação e sustentabilidade.

Engenharia pode resultar na construção de prédios, pontes e estradas. Estradas que levam pessoas de uma cidade a outra, pontes que transportam de uma margem a outra de um rio.

Educação constrói pontes e estradas que transportam as crianças do presente para o futuro, depende este transporte de uma engenharia mais complexa, pois trata dos sonhos, das expectativas, das ambições, enfim, do futuro que será tanto melhor quanto melhor for esta estrada que percorre o tempo, sempre focado na realidade presente, mas buscando as melhores alternativas para as novas realidades, que denominamos futuro.

O espaço percorrido nas pontes de concreto e o tempo percorrido pelos caminhos do conhecimento se conectam na medida em que o conhecimento constrói as pontes necessárias para transpor os obstáculos oferecidos pelos rios. Espaço e tempo, então, confundem-se. Nessa dualidade, nesta conexão, onde a linearidade dá lugar à não linearidade é que há a figura da sustentabilidade.

Sustentabilidade cidadã, sustentabilidade cultural onde o momento presente é a preparação para o futuro. O que ensinarmos hoje a nossas crianças será o que determinará a sua realidade futura. O que a Escola proporcionar de positivo na construção de competências é que fará com que os pequenos aprendizes das Escolas Infantis, Fundamentais e de Ensino Médio desfrutem uma cidadania plena.

O nosso entendimento hoje, que os gestores do futuro estão nos nossos bancos escolares e que quanto melhor forem ensinados, quanto melhor for sua capacidade de uma prática reflexiva, quanto maior for a competência para transformarem informação em conhecimento e conhecimento em sabedoria, melhores serão as perspectivas de um mundo mais humano, mais ético e onde as políticas públicas de Estado sejam centradas no social e não nos interesses econômicos.

A Escola tem que avançar nesta direção usando adequadamente as novas tecnologias, permitindo um espaço maior de ação sobre as crianças que vivem em áreas de maior vulnerabilidade social. As Escolas de Tempo Integral podem ser esta solução, associadas às novidades propostas pelas novidades tecnológicas que reduzem os espaços entre os conhecimentos construídos em todo o Planeta, permitirão avanços pedagógicos que não poderiam ser imaginados no século passado, mas que são uma realidade positiva para os dias de hoje.

É bem verdade que se diz não existir dinheiro para avançar significativamente na construção desta estrada que se chama educação de forma tão complexa, como foi o exemplo que citei de ampliar os recursos tecnológicos e construir Escolas de Tempo Integral, mas como isto pode acontecer na oitava economia do mundo, que tem dinheiro para construir dezenas de Estádios de Futebol e não tem recursos para construir, na mesma proporção, estas Escolas? Esta é a engenharia difícil de responder.

domingo, 25 de setembro de 2011

O Professor e o ciberespaço

Neiff Satte Alam



Interessado por determinado tema, acessei o Google. Rapidamente encontrei o que procurava. Ali estava pronto, sem nenhum trabalho extra, sem gastar muito tempo para pensar, e até sem pensar muito, o resultado de minha pesquisa eletrônica. Bons tempos estes novos tempos, mas, refletindo melhor, uma inicialmente breve preocupação passou a ser uma enorme preocupação, não comigo, mas com as crianças e adolescentes que, antes de apertarem os botões e as teclas dos aparelhos eletrônicos e entrarem no ciberespaço, necessitam desenvolver sua criatividade, dar asas à imaginação e desenvolver uma prática reflexiva que os coloque no mundo real antes de dominarem o mundo virtual e toda a tecnologia disponível.

A linguagem gestual que nos faz caminhar, falar e pensar; a relação direta com a natureza onde podemos observar a harmonia de um sistema ecológico em permanente luta por equilíbrio; as brincadeiras em grupos de crianças soltando pipas, jogando bolinhas de gude ou peões; colecionando figurinhas ou em um simples pega-pega ou esconde-esconde, constituem-se em preparações para uma vida real que enfrentará a virtualidade da máquina e permitirá, então, uma inserção positiva no ciberespaço. Uma inserção que nos colocará em vantagem sobre a máquina e nos permitirá desfrutar de toda a informação que pudermos recolher da Internet, com uma capacidade enorme de separar o “lixo” do “útil”.

É na Escola, na sala de aula, sob a orientação de um professor que tudo isto poderá ocorrer. Quanto mais informatizado for o planeta, quanto maior for o espaço cibernético, quanto mais informações estiverem disponíveis, maior será a necessidade e importância do professor. Um professor dos novos tempos, atualizado, interessado e respeitado.

O Google não é um professor, pois limita-se a ser um sítio de informações e o professor, que não é o Google, é quem permitirá, através de um processo de ensino-aprendizagem, que esta informação se transforme em conhecimento.

De nada teria me ajudado a procura de uma informação no Google se não tivesse tido antes um exército de professores, que me ensinaram a ler, escrever e realizar as primeiras operações matemáticas. Soltar pipas e lançar o peão, depois construir pipas e peões, finalmente ensinar crianças a utilizarem e até produzirem estes brinquedos, constitui-se em uma forma de prepará-las para um mundo onde as informações surgem com uma velocidade maior do que nossa capacidade de absorvê-las.

Se o professor do século passado era importante, o deste século é essencial para que estas gerações possam se desenvolver plenamente, mas dominando a máquina, dominando o ciberespaço e conscientes de que o ato de ensinar e aprender são fundamentais para usufruirmos desta fantástica tecnologia e deste momento ímpar da humanidade onde as fronteiras do pensamento inexistem.

sábado, 24 de setembro de 2011

Burocracia emperra a pedagogia

Neiff Satte Alam



“A REPROVAÇÃO de 79 mil crianças de 6 anos no primeiro ano do ensino -ou 3,5% dos inscritos na série em 2008- não chega a ser preocupante, mas traz um alerta. O fenômeno sugere que em algumas localidades a extensão do ensino fundamental para nove anos pode ter sido mal compreendida como obrigatoriedade de alfabetizar um ano antes do que se devia fazer até então, aos 7.”

Se já era preocupante o fato de ampliar o Ensino Fundamental de “baixo para cima”, isto é, substituir o último pré-escolar pelo primeiro ano, dando a falsa idéia de que houve um aumento para nove anos desta etapa do Ensino Básica, mais preocupante ficou na interpretação do Editorial da Folha de São Paula, pois fica claro que teria ocorrido apenas uma alteração “burocrática” e não pedagógica.

No entanto, está correto em afirmar que, na média brasileira, a expectativa de alfabetização aos seis anos seria um erro, pois estaria ainda, em sua grande maioria, em um estado pré-operatório onde se observa que a criança “é egocêntrica, centrada em si mesma, e não consegue se colocar, abstratamente, no lugar do outra; não aceita a idéia do acaso e tudo deve ter uma explicação (é fase dos "por quês"); já pode agir por simulação, "como se"; possui percepção global sem discriminar detalhe; deixa se levar pela aparência sem relacionar fatos.”

Somente no estado seguinte, o operatório-concreto , um dos estados de desenvolvimento a partir dos 7 anos, segundo Piaget e, conforme Nitzke et alli (1997b), neste estágio a criança desenvolve noções de tempo, espaço, velocidade, ordem, casualidade, ..., sendo então capaz de relacionar diferentes aspectos e abstrair dados da realidade. Apesar de não se limitar mais a uma representação imediata, depende do mundo concreto para abstrair.

Fica, então, fácil se concluir que a nona série (agora denominado ano) do Ensino Fundamental teria que ser inserida após a oitava e não antes da primeira, como está ocorrendo, pois acelera o risco de aumento de dificuldades na alfabetização da maioria das crianças. Mais adequado seria a oficialização dos pré-escolares dentro do Ensino Básico, com todas as vantagens constitucionais, impedindo que a evolução cognitiva natural de uma criança seja atropelada pelo artificialismo de uma decisão de gabinete.

Não excluímos a possibilidade de crianças sejam alfabetizadas, sem pressão, com idades inferiores (5 ou 6 anos), mas que sejam consideradas exceções e não situações extensivas aos demais como expectativa normal.

Ainda há tempo de correção, bastaria um pouco de humildade para o reconhecimento desta necessária mudança de rumo, sem artificialismo de encobrimento do erro, mas aproveitando-se do erro para, com criatividade e muita imaginação, “colocar o trem da educação nos trilhos”.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Dia de cão

Neiff Satte Alam



De manhã, como todas as manhãs, o Aparício aguardava o ônibus que o levaria ao centro da cidade e dali seguiria a pé por umas seis quadras até o local de trabalho, um escritório pequeno com mais de dez pessoas trabalhando onde caberia, saudavelmente, não mais do que três. Caminhando na grama que predominava junto ao local de parada do ônibus, inadvertidamente pisou em um malcheiroso e fresquinho produto fecal de algum cão que por ali passara. O sapato, de sola grossa e com várias ranhuras, ficou impregnado daquele material, que se grudou firmemente à sola e, por mais que passasse os pés na grama e na areia do local, mantinha-se preso. Neste meio tempo chega o ônibus (o próximo somente passaria 30 minutos depois), entre terminar a limpeza e “pegar”o ônibus, optou por seguir viagem.

Ao por o pé no estribo – aquele pé – já ficou a marca do solado do sapato e, naturalmente, o característico mau cheiro típico de dejeto de cachorro. O ônibus estava superlotado. Os primeiros passageiros a sentirem o cheiro imediatamente olharam, por instinto, a sola de seus sapatos, mas logo perceberam as pegadas denunciadoras que se prolongavam até a roleta junto ao cobrador. Várias janelas foram imediatamente abertas (eu disse que era inverno e a temperatura oscilava entre 1 e 2 graus Celsius? Não? Pois estava realmente muito frio). Ruídos e falas de desagrado foram ouvidos e olhares de pura antipatia lançados sobre o pobre Aparício que desesperadamente tentava se livrar do problema, mas só conseguindo piorar a situação ao esfregar o sapato, inadvertidamente, na bengala de uma senhora. Alguns jovens ensaiaram uma vaia, mas foram interrompidos por uma freada brusca do ônibus. Procurando rapidamente chegar à porta de saída, foi deixando sua marca em toda a extensão do corredor, um verdadeiro rastro de terror, de onde era um pouco vítima e um pouco culpado.

Naquele dia, Aparício não trabalhou, pois seus colegas de escritório, não suportando aquele cheiro desagradável, deram-lhe dispensa... Voltou para casa sem os sapatos, pois, em um momento de raiva incontida, atirou-os em uma lixeira provocando a fuga de vários ratos, baratas e moscas que, incrivelmente, não suportaram o cheiro.

Esta história me lembra as cenas que tenho visto nas CPIs de Brasília e do Rio Grande do Sul. Depois de pisarem nestes dejetos, fica o rastro e o malcheiroso ar denunciando as trapalhadas dos caminhantes que não olham onde pisam e aí ninguém, nem os “amigos”, querem limpar a sujeira e o pior, ninguém sabe quem ou de quem era o cachorro que começou toda a história. Deve estar arrumando encrenca em outras paradas ... de ônibus! Deste jeito, vão faltar ratos nas lixeiras.

sábado, 10 de setembro de 2011

A primavera e suas metamorfoses

Neiff Satte Alam



Como são curiosos os sons que marcam cada momento de nossa vida. Sons que identificam locais, estações do ano, efemérides e cada acontecimento importante. Nos verões passados, lá pelos anos sessenta ou um pouco antes, a chegada do verão era anunciada com canto de grilos e coaxar de rãs que transformavam o anoitecer em uma verdadeira orquestra com ritmo próprio que, com um bafo morno dos ventos da estação, embalava nosso sono. O bater de asas das andorinhas que chegavam em bandos numerosos e os sons emitidos pelas rolinhas durante o amanhecer só eram sufocados pela estridente gritaria das caturritas que revoavam esfomeadas até as plantações de milho.

O homem que vendia picolés com sua carrocinha feita em casa, assim como os picolés, utilizavam uma buzina característica que, não sei como, parecia ser a utilizada por todos os “picoleteiros” do planeta e provocava uma algazarra na garotada e um desespero dos pais que tinham que desembolsar dinheiro para satisfazer a gula dos pequeninos.

Isto tudo era sinal de primavera em andamento e prenúncio do verão, melhor, das férias de verão. Detínhamo-nos em observar, nas árvores e jardins abundantes naquela época, insetos e pássaros que iam surgindo do nada, como se uma varinha mágica tivesse o poder de tocar em lagartas e ovos e dali tirarem estes animaizinhos em todo o esplendor da criação.

As lagartas, aprisionadas em seus casulos, lentamente se transformavam em borboletas que lentamente tiravam aquela roupagem feia e grosseira, desfaziam-se de fragmentos protetores de uma metamorfose prevista por sua genética milenar.

Todas estas lembranças e imagens me vieram a mente no momento em que vislumbrei prédios do centro da cidade, inicialmente prédios abandonados, cinzentos e em processo de deterioração – que mais pareciam lagartas envolvidas por tapumes grosseiros, mas resistentes e protetores que escondiam a metamorfose que se fazia acontecer em seu interior – o casulo da crisálida, finalmente, com a eliminação do tapume, surgem prédios majestosos como deveria ser na época em que foram construídos.

Assim, aos poucos, a cidade vai se reencontrando com o passado em uma metamorfose que deverá qualificar e melhorar neste prenúncio de primavera, concretamente uma época de transformações, mas firmemente alicerçada por um passado rico, encoberto, que aos poucos vai se livrando dos tapumes da baixa autoestima e alçando voo para o futuro.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

EDUCAÇÃO E ARTE

Neiff Sate Alam



“A educação pela arte tenta o desenvolvimento de sensibilidade, imaginação, criatividade do ser humano, possibilitando ainda um crescimento em termos de visão estética, emocional e intelectual do seu mundo.”(MOSQUERA, Juan)





Desprezar a arte na educação tem sido um erro no nosso sistema educacional, pois vem suprimindo a criatividade natural de nossas crianças e jovens. Esta negligência histórica vem prejudicando a tarefa de estimular os estudantes a terem idéias originais. Devemos, professores que somos, acelerar a criatividade, a sensibilidade e a utilização de raciocínios originais. “...Se queremos promover a criatividade, precisamos encorajar a expressão espontânea, especialmente das crianças mais novas. Em certos momentos, deixemos que os alunos soltem suas idéias, à medida que estas lhes ocorram. Em vez de pintar, deixemos que eles por vezes rasguem papéis coloridos. Ou que batam nas coisas, no saguão, para descobrir-lhes o som”. (KNELLER, George)

Não devemos, por outro lado, permitir a separação da imaginação e do intelecto, pois isto poderia transformar-se em pura fantasia. Nosso modelo atual vem sendo pressionado por uma tendência a valorizar determinadas áreas do conhecimento por serem mais ajustadas ao sistema econômico que modela nossa sociedade. Damos mais valor a conhecimentos reducionistas vinculados à Matemática, Física, Química e Biologia do que à Filosofia, Sociologia, História e, principalmente, à Educação Artística, em todas as suas manifestações.

O reducionismo tem sido um obstáculo ao pensamento criativo. A imaginação, a criatividade e a sensibilidade devem ser o ponto central do processo educacional. Através do aprimoramento da sensibilidade, de uma desmassificação do ensino, valorizando o indivíduo em respeito a sua originalidade e unicidade, o sentido do pessoal e único.

Sendo a manifestação artística um ato pessoal, o aluno, através da Arte, cria e recria o seu universo interior; alimenta seu conhecimento com imaginação enriquecendo suas emoções; acelera seu sentido de humanização quando dialoga, pela arte, com sua cultura.

Sobre os ombros dos professores de arte recai uma enorme responsabilidade uma vez que precisam ser, segundo Mosquera, pessoas de consciência para alertar aos seus estudantes de suas capacidade e potencial.

Se tudo o que escrevemos acima é real, porque observamos o declínio da Educação Artística nas escolas? Porque a maior importância a outras áreas do conhecimento? Provavelmente porque em nosso mundo capitalista os valores artísticos (ou dados à arte) e a própria arte transformou-se em mercadoria e os artistas em produtores de mercadorias.

A escola, mais que a educação, submeteu-se a esta nova ordem.

Podemos e devemos modificar este estado de coisas. O modelo emergente que se apóia em uma pedagogia relacional, portanto interativa, induz o professor a estabelecer um encontro existencial com o seu aluno que, pela arte, busca valores resultantes deste encontro, embora guiados pelos valores do professor. Podemos, desta forma substituir o homem-comum pelo homem-sensível.

Para Mosquera, os professores de arte devem criar um clima apropriado, no qual os estudantes possam responder, aprender e criar; os professores de educação artística precisam desenvolver um sentido humano e criador no seu relacionamento com as outras pessoas; os professores de educação artística devem possuir conhecimento pertinente sobre a arte em geral e manipular técnicas adequadas de sensibilização.

O ensino da arte na Escola Fundamental, diferentemente do Ensino Médio, tem-se desenvolvido um trabalho mais eficiente, desenvolvendo-se a habilidade gráfica e sentido estético, mas no Ensino Médio ainda sofremos a forte interferência mecanicista de uma sociedade que seu desenvolveu a partir da Revolução Industrial.
A saída está na capacidade dos professores de se readaptarem a uma nova ordem fundamentada na liberdade, na capacidade de dialogar, na empatia e principalmente na capacidade de entender o novo e não se deixar seduzir pela estagnação e acomodação, pois a arte é dinâmica, tão dinâmica quanto às conquistas do homem em qualquer área do conhecimento.

“O lugar comum da desumanização da arte pela técnica e pela ciência, deverá ser substituído pela reflexão profunda dos caminhos de totalidade do agir do homem”. (MOSQUERA)

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Exposição sobre 50 anos da Campanha da Legalidade


Dia 2 de setembro, às 19h, será aberta a exposição O último levante dos gaúchos, no Memorial do Rio Grande do Sul (Rua Sete de Setembro 1020), na Sala de Tesouro, primeiro andar.
O evento integra as comemorações do Governo do Estado para assinalar os 50 anos da Campanha da Legalidade (1961-2011). A mostra exibe documentos originais, fotografias, peças de propaganda política e periódicos de circulação da época. A visitação está disponível de terça a sexta-feira, das 10h às 18h. Visitas guiadas podem ser agendadas pelo do fone (51) 32270882. A entrada é franca.
Museu da Comunicação e Arquivo Histórico do RS aceitam doações de materiais sobre a legalidade
A exposição resulta da parceria entre Museu da Comunicação Hipólito José da Costa e Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul, instituições vinculadas à Secretaria de Estado da Cultura, que apresentam materiais relacionados ao movimento da Legalidade. O Museu exibe exemplares do Ultima Hora – jornal de grande circulação em Porto Alegre nos anos 60. O acervo fotográfico da instituição apresenta cerca de 80 imagens, oriundas da Assessoria de Imprensa do Palácio Piratini durante a gestão de Leonel Brizola. E o Arquivo Histórico RS complementa a exposição com documentos originais relacionados esse episódio de grande repercussão na história do país.
Os materiais estão agrupados sob os seguintes temas: manifestações populares, lideranças políticas, fortificações no Palácio Piratini, meios de comunicação e estratégias políticas. A comissão curadora, composta por pesquisadores das duas instituições, primou pela seleção de peças que possibilitem a contextualização do fato histórico, além da compreensão do cenário político contemporâneo.
Em www.legalidade..rs.gov.br é possível acessar imagens do acervo do Museu de Comunicação, capas de jornais e revistas, áudios da Rádio Guaíba e vídeos da TV Assembléia com diversos depoimentos. A Secretaria de Cultura incentiva ainda uma campanha de doação de documentos da Legalidade.

Texto: Mariangela Machado

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Fetter é informado sobre projetos de Educação e Desporto
         O prefeito Adolfo Antonio Fetter recebeu, na tarde de hoje (19), em seu gabinete, a professora Alice Maria Szezepanski, da Secretaria Municipal de Educação e Desporto (SMED), e o chefe de gabinete da secretaria, Neiff Olavo Satte Alam, que vieram relatar ao prefeito a situação atual de projetos para as áreas de Educação e Desporto, verificada junto aos ministérios de Educação (MEC) e do Esporte, em Brasília.
          Foi informado ao prefeito Fetter o estágio dos projetos para construção de nove escolas de Educação Infantil e duas quadras esportivas, além de 10 espaços públicos para prática do esporte, o Centro de Treinamento do Brasil de Pelotas e da qualificação de quadras esportivas já existentes no Colégio Municipal Pelotense, junto aos dois ministérios.
         As informações trazidas por Alice e Alam foram no sentido de agilizar e identificar onde estão as pendências nestes projetos, para dar prosseguimento ao processo.
         Com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC 2), as nove novas unidades de educação infantil terão capacidade para 120 crianças, cada, com área construída de 564 m², no valor máximo de R$ 620 mil por unidade. As novas escolas serão construídas nos seguintes bairros/localidades: Sítio Floresta, Loteamento Dunas, Cruzeiro do Sul, Sanga Funda, Colônia Z3, Monte Bonito, Loteamento Darcy Ribeiro, Loteamento Eucaliptos e Vila Princesa.
         Já, as duas quadras poliesportivas deverão ser construídas em escolas municipais que tenham mais de 500 alunos, e que não possuam outra quadra, neste caso, as escolas beneficiadas serão as EMEFs Santa Irene (Cohab Pestano) e Independência (Sítio Floresta). Cada uma delas terá um custo máximo de R$ 490 mil.
         Os espaços públicos para prática do esporte deverão ser construídos nos seguintes locais: Porto, Navegantes, Fragata, Getúlio Vargas, Cohab Guabiroba, Simões Lopes, Santa Terezinha, Py Crespo, Balneário dos Prazeres e Sitio Floresta.




Data: 19/08/2011
Hora: 18:44
Redator: Berenice Costa - 11.381
Fotógrafo: Rafa Marin -

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Fidelidade


Neiff Satte Alam



Era um cão perdigueiro, nem Pointer nem Setter, apenas perdigueiro. Os entendidos diziam que era apenas um vira-lata com pinta de perdigueiro, para nós um amigo presente em todos os momentos do dia. Recebeu o nome de Nero. Até hoje não sei de onde saiu a idéia do nome e nem sei se sabíamos algo sobre o dono do nome.

Eu, meu irmão e meu primo formávamos com o Nero um quarteto de respeitáveis travessuras. Naquele tempo, Vila Olimpo era um pequeno lugar, centro do mundo é bem verdade, pois era o mundo que conhecíamos.

A rua do Comércio, onde ficava nossa casa e o armazém de meu pai, era nosso campo de futebol. Dois cinamomos robustos eram as goleiras e o principal jogador, pois ficava sempre com a pequena bola de borracha entre as pernas e totalmente babada e perfurada ao final do jogo, era o Nero. Sua cola batia com imensa felicidade levantando poeira sob nosso olhar não menos feliz, indicando o fim do jogo.

Época de férias, só entrávamos em casa na hora de comer, tomar banho e dormir. Quando éramos chamados para o almoço, o primeiro a ouvir era o Nero, que corria imediatamente para a cozinha, embora fosse o último a comer, não antes de encarar o olhar de repreensão de meu pai, única pessoa a quem respeitava, e ficar deitado sobre um canto e batendo sua espessa cola, esperando a hora de seu almoço.

Tinha três inimigos: um cão vira-lata peludo que disputava território e algumas donzelas que por lá passavam; moscas em geral, era quando sua cola mais trabalhava; um gato preto que o provocava de cima do muro ou do telhado, já tinham tido alguns encontros mais diretos e ambos saíram com algumas lesões, nada perigosas, mas com certeza muito doloridas.

À hora de dormir, podem acreditar, era sempre às 18h, inverno ou verão; banho, janta e cama. No pátio, junto a nossa janela, o Nero, depois de uivos e resmungos de contrariedade, também iniciava sua noite agitada pelas provocações do gato preto que insistia em irritá-lo passeando no parreiral que cobria parte do pátio.

Amanhecia. Alguém deixava uma porta aberta e era o suficiente para sermos acordados pelo Nero de forma alegre, exageradamente alegre. Ninguém conseguia ficar na cama depois destas demonstrações de imensa alegria. Levantar, lavar a cara, tomar um café com leite (que vinha direto da vaca para o consumidor), escovar os dentes e ... rua.

Depois do almoço um pequeno descanso antes de ir para o indispensável banho nas águas mornas e limpas do Rio Piratini, que chamávamos simplesmente de “arroio”. O Nero somente entrava n’água depois de ser carinhosamente atirado. Era ensaboado e esfregado e depois ficava secando ao sol bem distante do “burburinho” formado pelas famílias que se aglomeravam às margens do rio. Depois de seco, escondia-se à sombra de algum maricá esperando a hora do retorno.

Uma noite, percebeu-se movimentos diferentes na casa, meu pai e minha mãe transitaram com outras pessoas, ouvimos gemidos do Nero, depois tudo silenciou. Parecia um sonho ruim e o sono nos venceu e seguimos dormindo.

Naquela manhã não fomos acordados pelo Nero; não jogamos futebol; não fomos ao banho no arroio; nossos dias ficaram tristes.

Ninguém falou no assunto. Ninguém perguntou. As lágrimas molharam o rosto de todos. O Nero foi uma importante experiência de convivência harmoniosa e nossa primeira experiência de perda.

Não importa o tempo que duram nossos amigos, importa é a eternidade da amizade que fica e as experiências que seguem enriquecendo os aprendizados permanentes de vida.





segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Limpeza da vidraça


Neiff Satte Alam

            As piadas têm, em geral, uma mensagem que atingem as pessoas de forma diferente. Algumas riem da piada, outras se questionam e muitos sequer entendem o próprio enquadramento no contexto da piada. Tem uma que fala de um casal que estava tomando café e, através das vidraças, visualizavam o quintal da vizinha. Os lençóis estendidos no varal fizeram o comentário da manhã, pois a esposa chamou a atenção do marido para a sujeira dos lençóis. Este observou e, sem nada dizer, terminou sua refeição matutina em silêncio. Nos próximos dias a cena se repetiu, sempre a mesma observação da mulher e o mesmo silêncio do marido. Incomodado com a situação, o marido se levantou, pegou delicadamente a esposa pelo braço, levou-a até a vidraça e disse: “- Os lençóis da vizinha estão impecavelmente limpos, assim como as toalhas e as camisas, o que necessita de limpeza são os vidros da janela de nossa cozinha.”
            Lembrei-me desta piada ao ler manifestações de defesa da floresta Amazônica ao ser devastada por grileiros, assentados, nacionais e multinacionais. Um Bioma fantástico, de enorme biodiversidade – talvez a maior do Planeta, mas que vai se destruindo gradativamente. Perfeita a observação do autor do artigo em defesa deste ambiente.
            Provavelmente o mesmo autor esteja com os vidros dos óculos, se é que os necessita, empoeirados quando não percebe a mesma destruição do Bioma Pampa, também de riquíssima biodiversidade. Ambos os Biomas, Pampa e Floresta Amazônica, são tão importantes à manutenção saudável e equilibrada das populações humanas aí inseridas,   que os desequilíbrios provocados por suas destruições trarão danos irreversíveis até a própria economia destas regiões que são o alvo destas paradoxais salvações sócio-  econômicas que, pretensiosamente, parecem ser os objetivos dos que plantam lavouras de soja nas zonas desmatadas e lavouras de árvores no Pampa gaúcho e uruguaio. É de lá, do Uruguai que vêm um dos mais importantes alertas sobre esta situação (Correio Braziliense):           “...O Movimento de Agricultores Rurais de Mercedes, que reúne cerca de 150 produtores, já negocia com o governo uma pauta de reivindicações, onde exigem que nenhum eucalipto mais seja plantado, a desativação da fábrica de celulose, a solução dos problemas de água nas terras dos vizinhos das florestas e a revisão da legislação ambiental, que não impõem limites nem restrições à atuação das multinacionais do setor”. Vejam bem, lá não é muito diferente daqui, segue a notícia. “... A região sofre com a falta de água. Mesmo proprietários rurais  arrendaram terras para as multinacionais pressionam o governo para resolver o problema, mas não falam abertamente sobre o assunto. Dezenas de agricultores já deixaram a localidade, ou porque venderam suas terras ou porque não conseguem mais uma boa produtividade. A despesa com a operação de bombas d’água encarece o custo de produção. A escola mantida pela intendência de Mercedes contava com 60 alunos há poucos anos. Hoje, não passam de 20. Encontramos várias casas abandonadas perto da estrada que margeia as florestas da Florestal Oriental e da Eu Flores, que abastecem as multinacionais”.
            Bem, como diz a piada, talvez tenhamos que lavar nossas vidraças antes de somente ver lá fora, distante, os problemas que na verdade estão em nossa casa, no nosso quintal e logo na nossa cozinha quando começar a falta de água, comida e condições mais dignas de vida.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Almas perdidas

Neiff Satte Alam

“...Não há duas pessoas iguais no universo. Mas o individualismo é prejudicial. Uma pessoa individualista quer que o mundo gire em torno de sua órbita, sua satisfação está em primeiro lugar, mesmo se isso implicar o sofrimento dos outros.” (Augusto Cury)



O sol ia surgindo no horizonte daquela cidade. Um céu avermelhado encimado por nuvens escuras que davam um aspecto de “feio-bonito” ao amanhecer. Sobre o asfalto ainda úmido e frio estava estirado, sem vida, pois o manto da morte me cobria por inteiro. Os primeiros transeuntes, chocados com meu corpo, não apenas por estar sem vida, mas pelo aspecto de uma deterioração que iniciou antes da morte, ficaram estáticos olhando a cena. Não me viam, somente eu os via, sentia a dor daqueles olhares de estranhos que emitiam opiniões de lástima por ter alguém chagado àquele estado de degradação.

Enquanto aquele grupo se formava e dizia as coisas mais estranhas, mas verdadeiras, comecei a lembrar o quanto fui feliz antes de me entregar ao vicio e ceder aos conselhos ruins de amigos (?) que mandavam provar das mais estranhas e perigosas drogas, mas que jamais, segundo eles, fariam algum mal.

O sorriso alegre e de esperança em um futuro promissor que meus pais esboçavam a cada nota mais alta na Escola ou a um elogio de algum amigo ou professor, ecoava na minha mente sem corpo enquanto olhava meu corpo sem mente, prostrado como se fosse um mendigo de afeto e de carinho. Meus olhos espirituais fixaram os olhos materiais sem vida e, como um espelho, refletiram dias em que festas de aniversário organizadas por minha mãe e tias identificavam um amor incondicional, enorme e uma esperança de que seria um homem de bem e retribuiria todo o carinho ali depositado quando adulto.

Tentei fugir, mas não consegui. Tentei não olhar, mas meus olhos espirituais não tinham pálpebras. O choro era apenas uma dor, não havia lágrimas. Não podia me desculpar pela dor que causara e que ainda causaria, pois, mesmo nestas condições, meus familiares e amigos chorariam as lágrimas que não possuo mais. Gritos e lamentos teriam que ouvir e não poderia dizer nada, somente sofrer todas aquelas dores que causei, todo o sofrimento e decepções de pais que apostaram em mim.

Vi meu corpo ser enrolado em uma lona preta e colocado em um veículo para ser levado. As pessoas ainda ficaram no local, chocadas, tristes e maldizendo a todo este círculo de tráfico, distribuição e uso de drogas que permeia pela sociedade como uma víbora sedenta de almas. Vi meus pais em estado de choque recolhendo restos de meus trapos que sobraram junto ao corpo, seus olhos estavam tão sem vida quanto os meus e a dor que experimentavam era incurável e os acompanharia até o dia de suas mortes. Antes de desaparecer sobre o manto negro da morte, virei-me e li o que estava escrito no muro: DROGAS, NUNCA MAIS!

segunda-feira, 13 de junho de 2011

CONEXÕES

NEIFF SATTE ALAM

Durante a noite, quando a maior parte da população humana de Pelotas dorme, os espaços começam a ser ocupados por dezenas de animais que têm como hábito se despertarem com a ausência do sol. Corujas, morcegos, vários tipos de insetos, gatos, ratos e outros tantos animais saem em busca de alimento e de parceiros para se reproduzirem.

Dos sótãos dos casarões antigos, dos campanários e dos galhos de árvores e arbustos, caçadores esfomeados iniciam a captura de suas vítimas, muitas vezes caçadores que se transformam em caça. Revoadas de morcegos consomem milhares de insetos em pleno vôo; corujas, em vôos solitários e silenciosos, apenas quebrado por discretos “pios”, dão rasantes sobre a ratazana que se aventura nas sarjetas em busca de alimento, prende-a com suas garras fortes e, rasgando suas entranhas, sacia a fome.

Gatos, com suas pupilas dilatadas ao máximo, disputam os ratos com as corujas, mas não deixam de saborear suculentos grilos, gafanhotos e baratas. Pequenas lagartixas de grandes olhos, quase transparentes, desafiam a lei da gravidade caminhando pelas paredes, pelos troncos das árvores e pelos telhados, em sua caminhada, se não tiverem o azar de encontrar algum gato, vão consumindo dezenas de mosquitos, moscas e aranhas.

Esta grande cadeia alimentar que vai se desenhando com o avançar da noite não é casual, nem fora dos planos naturais de equilíbrio dinâmico e de manutenção em números satisfatórios de todos estes animais envolvidos nesta festança gastronômica noturna.

Enquanto dormimos, a natureza vai cumprindo seu papel de manter vivo e em equilíbrio nosso Planeta. Todos estes exemplos citados se constituem em uma ínfima amostra do que ocorre nas 24 horas do dia e dia após dia longe, na maioria das vezes, dos nossos olhos ou de qualquer um de nossos sentidos. Este involuntário afastamento destes fatos naturais faz com que não percebamos sua importância na própria manutenção de nossa saúde individual e ambiental. Não percebermos esta rede interconectada entre todos os seres vivos e principalmente que fazemos parte desta rede, transforma-nos em vítimas das nossas próprias ações que, sendo inconseqüente e muitas vezes de equivocada esperteza, desarmonizam e desequilibram o suporte de vida com que nos brinda o ecossistema.

Se olharmos o Planeta Terra de fora, perceberemos que nenhuma de suas partes, desde as microscópicas bactérias até as gigantescas sequóias, é dispensável; perceberemos que o clima, com todas suas variações, segue regras planetárias bem definidas e que, se sofrerem quaisquer alterações por agentes externos, comprometerão todo o resto; perceberemos que, mesmo que todo o processo evolutivo ocorra pelo acaso, pelos erros e incertezas da e na própria natureza, existe uma busca permanente de se manter em processo de auto-organização.

Logo, sempre que alterarmos este estado de equilibro por necessidade de sobrevivência de nossa própria espécie teremos que ter o cuidado de avaliar as conseqüências e minimizar os impactos. Caso isto não seja feito, os benefícios aparentes serão sufocados por enormes prejuízos e, na pior das hipóteses, uma catástrofe ecológica de dimensões inimagináveis.